Acervo pessoal

Da militância na fotografia junto à Companhia Teatral Alegria, Alegria na década de 1990, à riqueza das tradições populares de São Gonçalo do Amarante, Lenilton Lima passou a conviver com Mestres e brincantes.

Até que decidiu morar na cidade marcada pela cultura popular, sempre acompanhado da máquina fotográfica e a desconfiança de pesquisador. Como bem disse Guimarães Rosa em sua obra Grande Sertão Veredas: “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”.
A partir desse contato com as tradições surge o Ponto de Cultura BoiVivo, que faz parte da Associação República das Artes. “A gente tem um trabalho em São Gonçalo desde os anos 1990. Fotografei Dona Militana durante uma homenagem a ela na época da SPVA, e lhe dei as fotos de presente”, recorda.
Ilustração: Newton Navarro. Fotografia: Lenilton Lima

Viva o Boi de Reis

Em janeiro de 2010 morre o Mestre Elpídio, que além de ser uma fonte inspiradora para o BoiVivo era um amigo. “Ele falava da grandeza de São Gonçalo, do quanto o pessoal gostava do folclore. A partir daí comecei a fazer um trabalho com o Boi de Reis”.
Lenilton conta que o Boi do Mestre Elpídio viajava seis meses na época da cultura do algodão. “Durante o dia trabalhavam na colheita do algodão e à noite ganhavam dinheiro rodando o Boi. Ele montava o grupo e dizia que vinha para São Gonçalo e ficava 14 noites”.
Na sua opinião o grande incentivador da cultura potiguar era Djalma Maranhão, prefeito de Natal cassado pelo golpe militar de 1964. “O Mestre de Boi de Reis, Mané Curto, não aceitou brincar nos palanques de Djalma Maranhão como outros brincantes. Ao contrário do Mestre Elpídio que ficou encantado em brincar no palco que não era uma coisa comum na época, porque o Boi brincava no meio da rua. Então, ele deixou de fazer as viagens que continuaram sendo feitas pelo Mestre Mané Curto. Quando Djalma Maranhão foi cassado e preso, Mestre Elpídio também se sentiu perseguido e deixou de brincar. O Boi dele ficou amarrado num canto de parede durante anos”.
Juares Pessoa de Melo (Filho do Mestre Mané Curto) e Mestre Elpídio do Boi Calemba. Fotografia: Lenilton Lima
Lenilton comenta que “na cabeça de Mestre Elpidio, como Djalma Maranhão era o incentivador da cultura popular, se ele brincasse em Natal ia ser perseguido porque estava cometendo um ato comunista que era brincar de Boi de Reis”. Na época, muitos grupos pararam de brincar com medo de ser perseguido politicamente pela ditadura. Porém, o Boi Calemba Pintadinho continuou se apresentando, como afirma o Mestre Dedé.
Mais do que pesquisar a cultura popular Lenilton Lima defende a originalidade dessa tradição. “Um dos grandes problemas da cultura popular é a academia, que começa a induzir os Mestres a inovar, aí vai tirando a originalidade do grupo. O que a gente defende é justamente que os Mestres mantenham a tradição. Então, passamos a levantar a autoestima deles. Tentamos trabalhar dentro da tradicionalidade. Sabemos que quando quebra uma vara do Boi o Mestre tira e coloca outra. Quando tem uma armação de alumínio, se quebrar um negócio desse tem que ir atrás de uma pessoa para soldar”.
Relata que a sua pesquisa foi primeiro com os Mestres e depois é que começou a ler. “Mesmo assim discordo muito do que eu leio. No meu modo de ver o nosso Boi é Boi de Reis. Esse negócio de Boi ‘Calemba’ foi inventado pelos intelectuais, a partir da vinda de Mário de Andrade, em 1929. Então, Câmara Cascudo e Deífilo Gurgel começaram a plantar essa semente. Porque aqui em São Gonçalo, segundo o Mestre Dedé Veríssimo, era Boi de Reis Pintadinho Surubim. Os Mestres mais antigos não sabem nem o que danado é Calemba”.
O pesquisador explica que Deifilo influenciou na mudança do Boi em São Gonçalo e Tapará. “De acordo com os Mestres o Boi de Reis daqui era Pintadinho, Chuvisco e alguns Surubim. Mas aonde os intelectuais conseguiram chegar, não sei por qual motivo, eles sugeriram mudar o nome do Boi”.
Segundo Lenilton, quando o Mestre Elpídio foi lá na República das Artes, no grupo Artes e Traquinagens, ele dizia que o Boi de Reis estava se acabando e queria que Cátia Dantas que é formada em Artes fizesse as máscaras dele. “A gente achou que a forma de salvar o Boi de Reis era a academia, através dos professores de artes, porque o Boi de Reis é um auto completo, tem todas as artes cênicas, a dança, a música, a poesia. Só que a gente quebrou a cara. O que o Boi de Reis precisa é do conhecimento dos próprios Mestres, dos brincantes. Foi assim que o Boi de Reis do Mestre Elpídio voltou a brincar. Ele desenhava as máscaras no chão, pegava papel de cimento, grude, e moldava a carranca”.
Afirma que o BoiVivo vê o Ponto de Cultura como uma ferramenta para trabalhar a função social, fortalecer e divulgar a cultura local. “Sempre trabalhamos a autoestima dos grupos para se sentirem valorizados. A gente encontrou no Boi Calemba Pintadinho, no Mestre Dedé e no potencial do grupo uma forma de fazer esse trabalho”.
Boi de Reis de São Gonçalo do Amarante representa a cultura potiguar no Baile Enfeitado (RS). Fotografia: Lenilton Lima
Além de ser parceiro em festas tradicionais locais, o Ponto de Cultura BoiVivo conseguiu levar o Boi Calemba Pintadinho para o Baile Enfeitado, em Porto Alegre (RS), no festival da Copa do Mundo em 2014. “O cachê foi divido igualmente entre o grupo, que passou a se destacar no cenário cultural potiguar e nacional”.
54º Festival do Folclore de Olímpia (SP). Fotografia: Lenilton Lima
Em 2018, o auto popular que melhor representa a diversidade do povo brasileiro com sua riqueza poética e teatral  ainda se apresentou no Festival de Olímpia, em São Paulo, que é o maior evento de folclore do país. “O Ponto e Cultura também contribuiu para que São Gonçalo tivesse um carnaval cultural, além da Festa de Reis e o São João com o Arraiá do Mestre Dedé. Agora, a gente pensa no fortalecimento do Ponto de Cultura para fazer um trabalho social”, aponta Lenilton.
O fotógrafo é dono de um rico e diversificado acervo de imagens que testemunham a riqueza representada pelos Mestres e brincantes da cultura popular de São Gonçalo do Amarante. Um trabalho de pesquisa que conta histórias como a do Mestre do fandango e pescador, João Viana, que relata como salvou as pessoas durante uma cheia na região de Uruaçu nos anos 1980. “Muitos Mestres já faleceram, mas deixaram suas narrativas registradas”.
Coroação do Mestre Gláucio Teixeira. Fotografia: Lenilton Lima
Lembra quando o Mestre Sérvulo Teixeira, antes de falecer, coroou o sobrinho Gláucio Teixeira, que recebeu a missão de manter a tradição do Congos de Calçola de São Gonçalo do Amarante. Para Lenilton, fotografar a cerimônia ocorrida em 2010 durante a missa de sétimo dia do Mestre Lucas, avô de Gláucio, foi um dos registros mais emocionantes, além de contribuir para eternizar a cultura popular.
Agora, através da Lei Aldir Blanc, o Ponto de Cultura BoiVivo e seus brincantes buscam alugar uma sede onde possam voltar a realizar as oficinas de capoeira, dança afro, cultura indígena e seguir valorizando as tradições populares no  município de São Gonçalo do Amarante.