Em 2021, um dos militantes políticos mais procurados pela ditadura militar Luiz Ignácio Maranhão Filho completaria 100 anos.

Advogado, jornalista, professor da faculdade de filosofia do Rio Grande do Norte, atual UFRN, o dirigente  do Partido Comunista Brasileiro (PCB) é um dos muitos norte-rio-grandenses mortos e desaparecidos durante a ditadura militar.
Além do Instituto Professor Luiz Maranhão Filho, esse ilustre potiguar natural de Natal/RN está presente em nome de rua, praça, escola e até uma placa no Monumento contra a Tortura em Recife/PE. São muitas formas de admiração e respeito por esse lutador das causas populares que foi duramente perseguido e torturado nos cárceres da repressão.
Mais uma justa homenagem está sendo organizada em comemoração ao centenário de nascimento de Luiz Maranhão. A programação que se estenderá por todo o ano de 2021 estreia no próximo dia 25 na Governadoria com o lançamento de um selo comemorativo.
Depois, ao longo do ano, vai acontecer um monte de eventos que inclui sessão solene no Senado Federal, na Assembleia Legislativa do RN e Câmara Municipal de Natal, publicação de livros, exposição, seminário e debates, explica o representante da Comissão de Direitos Humanos e Memória Popular, Roberto Monte, que preside a comissão responsável pelas comemorações. Para isso conta com a colaboração e o apoio de antigos companheiros, companheiras e familiares de Luiz Maranhão.
Todas as reuniões de organização e atividades programadas para o evento ocorrerão de forma virtual “até aparecer a vacina para a Covid-19”, informa a comissão oficial.

Memória de um grande lutador

De acordo com o relatório da Comissão da Verdade sobre mortos e desaparecidos, LUIZ IGNÁCIO MARANHÃO FILHO foi torturado e executado por agentes do Estado brasileiro.
O filho de Luiz Ignácio Maranhão e Maria Salomé Carvalho Maranhão nasceu em 25 de janeiro de 1921, em Natal (RN). Casado com Odette Roselli Garcia Maranhão, o professor do Atheneu Norteriograndense, onde havia estudado, desapareceu em 3 de abril de 1974.
Jornalista, colaborou com diversos jornais do estado, particularmente o Diário de Natal, e publicou vários artigos na Revista Civilização Brasileira.
Em 1945, iniciou sua militância no PCB. Preso em 1952 pela Aeronáutica, em Parnamirim (RN), foi muito torturado. Sua história constituiu um capítulo do livro A História Militar do Brasil, de Nelson Werneck Sodré. Em 1958, foi eleito deputado estadual, pela legenda do Partido Trabalhista Nacional (PTN), desempenhando o mandato até 1962.
No início de 1964, visitou Cuba a convite de Fidel Castro. Quando ocorreu o golpe de Estado em abril do mesmo ano, Luiz foi preso e, novamente, submetido à tortura. Foi atingido pelo primeiro Ato Institucional, com suspensão de direitos políticos e cassação do mandato de deputado estadual no Rio Grande do Norte em 8 de junho de 1964. Permaneceu preso na ilha de Fernando de Noronha (PE) até fins de 1964, junto com o governador de Pernambuco Miguel Arraes e seu irmão, todos cassados.
Libertado, imediatamente passou à clandestinidade, no Rio de Janeiro. Durante o período de vida clandestina, Luiz Maranhão atuou em diversas atividades partidárias. Foi eleito membro do Comitê Central do PCB no seu VI Congresso, em 1967.
Era importante elo nos contatos do PCB com a Igreja católica e políticos da oposição legal. Defendia o diálogo entre marxistas e cristãos, conforme o filósofo filiado ao PCF, Roger Garaudy, com quem se correspondia. Ele acreditava em uma aproximação com a Igreja para realizar um trabalho conjunto contra a ditadura.
Prisões no Rio de Janeiro, em junho de 1970, originaram um Inquérito Policial Militar (IPM) no Primeiro Distrito Naval para apurar a atividade de militantes do PCB. Em 27 de março de 1973, o Superior Tribunal Militar julgou a apelação e, por maioria de votos, o absolveu.
Circunstâncias da morte ou do desaparecimento forçado
Ele foi preso em 3 de abril de 1974 numa praça, em São Paulo, capital. Pessoas que presenciaram a cena informaram que ele foi algemado e conduzido por agentes policiais. A ditadura jamais reconheceu sua prisão e seu nome foi incluído no Dossiê ditadura: Mortos e Desaparecidos no Brasil (1964-1985), organizado pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.
Em 8 de abril de 1987, o ex-médico e torturador Amilcar Lobo revelou, em entrevista à Revista Isto É, que o viu sendo torturado no DOI-CODI do I Exército no Rio de Janeiro.
Marival Chaves Dias do Canto, ex-sargento do Exército e ex-agente do DOI-CODI, concedeu depoimento à Revista Veja, publicado em 18 de novembro de 1992, em que revelou que Luiz Ignácio Maranhão Filho foi torturado e morto, com uma “injeção para matar cavalo”, em um centro clandestino na Estrada da Granja n. 20, no Município de Itapevi (SP). Tratava-se de uma ação da “Operação Radar” para “dizimar o PCB”. Seu corpo teria sido atirado no Rio Novo ou na Represa de Jurumirim, no interior do Estado de São Paulo, perto do Município de Avaré.
O ex-delegado Cláudio Guerra, em Memórias de uma guerra suja (Rio de Janeiro: Topbooks, 2012), afirmou que identificou o corpo de Luiz Ignácio Maranhão Filho e o transportou da Casa da Morte, em Petrópolis, para a usina Cambahyba, em Campos, onde ele teria sido incinerado.
Fotografia: Taian Marques/Coletivo Foque

Luiz Maranhão vive!