Ana Kelly dos Reis Nonato, mulher negra da periferia que usa a voz como uma poderosa arma de empoderamento e transformação social.

Arquivo pessoal
A estudante de Licenciatura Interdisciplinar em Educação do Campo, da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró (RN), é uma ativista do movimento negro e integrante do Coletivo Negras – Núcleo de Estudos de Gênero, Relações Étnico-Raciais, Aprendizagem e Saberes, e militante da Rede Dêbandeira LGBTT.
“Além do meu lugar de fala no espaço onde eu convivo, minha família é de comunidade periférica, comunidade rural, então foi bem mais fácil eu me encontrar dentro do curso. Nasci e me criei no santo Antônio, um bairro periférico de Mossoró, e a partir dos  movimentos sociais, como os coletivos feministas, eu pude perceber que tinha condições de adentrar a universidade, ter uma profissão que eu gostaria, então, isso fez eu chegar a instituição na qual estou hoje”.
Atual coordenadora do Centro Acadêmico Ledoc/Ufersa, ela afirma que “As cotas vieram também para disciplinar a própria sociedade, para mostrar que existe uma população que é marginalizada, que muitas vezes é negado o acesso, e a cota vem como uma base exatamente para mostrar que essas pessoas existem”.
Coletivo Negras no encontro das pretas em Natal. Foto: Arquivo pessoal
O engajamento na luta contra o racismo e em defesa dos direitos humanos é fortalecido com a sua entrada na universidade, onde concorreu com a política de cota. “A partir do momento que a população negra começa a entrar na universidade já tem outra visão de sociedade, e por mais que tenha ancestralidade, muitas vezes negras e negros desconhecem a própria religião devido ao preconceito e à forma estrutural como se monta a sociedade”.
Para ela, a universidade vai permitir que essa população também se reconheça dentro da instituição, acentuando a questão do empoderamento, como hoje tem o coletivo Negras, da qual é integrante e também é pesquisadora da temática de negritude. “Então, a política de cota é essencial para essa população porque hoje a gente consegue mais ter essa percepção que apesar de ser uma população com mais de 50% preta e parda, de acordo com o IBGE, muitas vezes não vemos essa população em lugares de poder. Temos poucos professores negros, poucas professoras negras participando da gestão da universidade. É preciso mostrar que as nossas vidas são importantes”.
Kelly observa que a luta não é somente pelo acesso, mas também pela permanência. “Para garantir que essa população entre e continue abrangendo outros espaços, como a graduação,  o mestrado, o doutorado, e que de fato ocupe os lugares de poder, como os concursos, processos seletivos para demarcar os espaços que historicamente foram negados e mostrar que somos pessoas que temos direitos”.
Ela conta que sua entrada na universidade chocou totalmente. “Primeiro porque é uma realidade que muitas vezes não nos contempla. A partir do momento que a universidade se propõe a debater temáticas como LGBTfobia, machismo, racismo, há uma mudança cultural porque as pessoas já começam a perceber que aquilo é preconceito, já não escuta mais calada, além dos nossos corpos, a estrutura da sociedade começa e ser repensada”.
Aos 18 anos de idade, depois de passar por várias etapas na busca do primeiro emprego, tinha a confiança que já estava lá. “Mas quando recebi a ligação da empresa, falou que minha prova tinha sido excelente, a entrevista muito boa, mas, pelo perfil, escolheu a outra candidata, que inclusive era loura, cabelo liso, magra. Já eu tenho outro estereótipo, mulher negra, meu corpo não tinha o perfil que a empresa achava que se encaixava para ser atendente de balcão. Eu só vim perceber depois que tinha sido vítima do racismo, as piadas que sofri quando era criança, ‘nega do sovaco fedorento’, então, a universidade trouxe esse fortalecimento de poder, por que me fez perceber que naquela época eu já sofria racismo e não tinha essa percepção”.
Ela aponta a leitura de autoras negras, como Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, que retratam muito essa realidade. “Como é bom a gente se sentir pertencente ao nosso corpo. Nosso empoderamento feminino é importante exatamente por isso. Porque a partir de outra linguagem a gente começa a se reconhecer na estrutura onde está”.
Como bolsista do CNPq há cerca de um ano, Ana Kelly está pesquisando a linguagem midiática da educação antiracista, tocando na dolorosa ferida que expõe o racismo estrutural tão arraigado em nosso país. “A educação sempre foi um campo de batalha para os negros”, diz a filósofa Sueli Carneiro em entrevista para o vídeo “Gestão Escolar para Equidade Racial”.
Historicamente, o movimento negro cumpre um papel fundamental para garantir o acesso da população negra à educação, a exemplo da Lei nº 10.639/2003, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e torna obrigatório o ensino da cultura e história africana. Daí, a educação antiracista apontada por Ana Kelly em seu trabalho de pesquisa é tarefa essencial ao enfrentamento do racismo e das desigualdades. Essa ancestralidade gritada está presente também na Força Feminina da poetisa Jeovânia P.
“Há em nós uma força ancestral
Que vem de dentro da terra
E encontra suas raízes em nosso caminhar
Que pulsa uns gemidos de dor
Outros de prazer
E mais ainda de resistência
Que corre no espelho
A nós afagar
Que segura a lágrima
E nos põe forte
Renovando nosso ser
Essa força encontra em nosso ventre
O lugar ideal para brotar”