Fotografia: Rogério Marques

Os efeitos da crise sanitária sobre o mercado de trabalho foram intensos, aponta o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Milhões de trabalhadoras e trabalhadores perderam seus empregos ao mesmo tempo em que muita gente teve dificuldades de ocupar novos postos de trabalho, “devido às restrições de atividades econômicas ou de locomoção provocadas pela pandemia”.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – Pnad Contínua/IBGE analisou o perfil do mercado de trabalho entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano, considerando quem perdeu ou saiu do trabalho após o início da pandemia do novo coronavírus. Segundo o estudo, “cerca de 13% dos ocupados no primeiro trimestre de 2020 (11,9 milhões de pessoas) não estavam mais trabalhando no segundo trimestre do ano – estavam desocupados ou fora da força de trabalho. Os trabalhadores com rendimentos mais baixos são os que mais perderam trabalho: 23% dos ocupados que recebiam até 1 salário mínimo (SM) no primeiro trimestre estavam sem trabalhar no segundo”. Enquanto isso, 9% de quem recebia entre 1 e 3 salários mínimo no começo deste ano ficou sem trabalho no segundo trimestre. “Entre as pessoas que perderam ou saíram do trabalho no período analisado, 96% tinham rendimento de até 3 SM nos primeiros três meses de 2020”.Ainda de acordo com os dados da pesquisa, “A proporção de pessoas que perdeu ou saiu do trabalho no segundo trimestre foi maior entre os que tinham menor proteção trabalhista”. Uma triste realidade que afetou 31% dos trabalhadores domésticos e 23% dos empregados no setor privado que não tinham carteira assinada.Para as mulheres que já enfrentam maiores dificuldades no mercado de trabalho do que os homens, entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano o impacto do desemprego foi maior entre elas.
Negras e negros encaram um cenário semelhante quanto o assunto é emprego/desemprego. “Cerca de 15% dos ocupados negros nos primeiros três meses de 2020 estavam sem trabalho no segundo trimestre, diante de 10% dos não negros”.Quanto à pessoas de faixa etária diferente, a pesquinda aponta que cerca de 31% dos jovens entre 14 e 17 anos com trabalho no primeiro trimestre estavam sem trabalhar no segundo. Entre 70 anos de idade ou mais, 22% estavam nessa situação.“Os trabalhadores menos escolarizados foram mais impactados pela crise do coronavírus. Cerca de 22% dos ocupados sem instrução e com menos de um ano de estudo estavam sem trabalhar no segundo trimestre”. A tabela a seguir expõe a realidade nua e crua do desemprego para esse perfil de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros.A desigualdade social aprofundada pela pandemia retrata um país onde a classe trabalhadora resiste a todo tipo de exploração gerada pela linha de produção da sociedade capitalista. Exemplo disso são postos de trabalho cada vez mais fragilizados pela retirada de direitos trabalhistas, sem carteira assinada e com baixa remuneração. A perversidade da crise sanitária analisada pela Pnad Contínua/IBGE reflete o tamanho das desigualdades econômicas, políticas e sociais no Brasil, que não tiveram a devida atenção nas últimas eleições. Resta seguir o verso do poeta Thiago de Mello, “Faz escuro mas eu canto”.