Fotografia: Rogério Marques

“A luz apagou”. “A comida apodreceu nas geladeiras”. “A água não chegou nas torneiras”. Essas são algumas das muitas reclamações que revelam o drama de milhares de famílias?

Em meio à pandemia do novo coronavírus a população do Amapá, no extremo Norte do Brasil, sofre as consequências de um incêndio na subestação de energia elétrica que causou um apagão, deixando 14 das 16 cidades do estado no breu e sem abastecimento de água encanada.
Segundo Clodoaldo Rodrigues, dirigente da CSP-Conlutas no Amapá, a situação da região é de desespero mesmo. “Aqui é muito quente e, mesmo com as chuvas, o calor não foi amenizado. Além disso, estamos perdendo alimentos e outros materiais e ninguém cogita qualquer tipo de reparação à população”. O aumento dos preços se tornou mais um desafio. “Garrafões de água, que antes giravam em torno de 3 a 6 reais a unidade, agora são vendidos por 20 a 30 reais”.
Clodoaldo avalia que faltou disposição política. “A Isolux, empresa espanhola concessionária responsável pela transmissão de energia e que tentou fugir da responsabilidade, já tem uma trajetória extensa de negligência”.
A luz que havia sumido completamente desde 3 de novembro voltou parcialmente em forma de rodízio, mas há muita reclamação contra o revezamento desigual de energia que privilegia bairros nobres. Enquanto o desespero invade as periferias a elite continua se beneficiando do apagão social que prolifera ainda mais desigualdades.
Até o momento a PM já contabilizou mais de 80 manifestações de protesto que repudiam o descaso dos governantes e suas políticas de privatização de serviços públicos essenciais, como o setor de energia elétrica no Brasil. Em 2008 a LMTE (Linhas de Macapá Transmissora de Energia), que na época pertencia à empresa espanhola Isolux, ganhou a concessão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para operar a transmissão de energia no Amapá. O contrato tem duração de 30 anos.
Em coletiva de imprensa ocorrida no último dia 11, a Polícia Civil do Amapá apontou que o problema na subestação de energia não foi causado por raio. O resultado completo do laudo será divulgado após a conclusão das investigações.
Diante da falta de luz o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu na quinta-feira (12/11) adiar o primeiro e segundo turno das eleições municipais em Macapá para 13 e 27 de dezembro respectivamente. No restante do estado a votação ocorrerá normalmente neste domingo, dia 15.
O juiz federal João Bosco Costa Soares da Silva, da 2ª Vara Federal Cível do Amapá, decidiu nesta sexta-feira, dia 13, estender por mais 7 dias o prazo para que o fornecimento de energia elétrica no estado seja restabelecido em 100%. No caso da LMTE não resolver o problema dentro do novo prazo, o valor da multa a ser aplicada passou de quinze para 50 milhões de reais. Determinou ainda que no prazo de 10 dias o governo federal inicie o pagamento de auxílio emergencial de R$ 600, por dois meses, às famílias carentes dos municípios afetados pelo apagão.
Através de nota a Gemini Energy, que assumiu a administração da LMTE em janeiro deste ano, afirmou que o fornecimento de energia já está perto de 90% da carga máxima. Segundo a empresa, o restabelecimento pleno da energia no Amapá está previsto para o início de dezembro, deixando a população no caos do racionamento ainda por mais de duas semanas.
Sem a energia elétrica, a vela passou a reinar nos lares da capital Macapá e municípios onde acontece o rodízio. As tomadas de supermercados e shoppings estão sendo disputados por um emaranhado de cabos de celular, que em meio à flagrante aglomeração busca o sinal para fazer a tão esperada ligação.

Solidariedade urgente

Diversas entidades sindicais, como a CSP-Conlutas, Andes (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior), Associação de Docentes da Universidade Federal do Pará (Adufpa), Sindicato dos Docentes da Universidade Federal do Amapá (Sindufap) e o Sindicato dos Servidores Técnicos-administrativos da Universidade Federal do Amapa (Sinstaufap) organizaram uma campanha de arrecadação solidária para as famílias do Amapá.