por Rogério Marques
Charge: Carlos Latuff

No meu primeiro dia como professor aprendi que não devia ensinar nada. Apenas pensar junto com a turma. Nesse caso uma sala de educação infantil na rede estadual de ensino.

Ao entrar na sala de aula logo me deparei com a inquietação da criançada. Repentinamente me dei conta que ali, naquele momento, não caberia nenhum verbalismo. Nenhuma proibição. Muito menos silêncios. Me veio à cabeça anotações do livro “A paixão de conhecer o mundo”, da professora Madalena Freire, valorizando tão apaixonadamente a produção das crianças. Entre choros e espantos, passei no meio da galerinha e abri o primeiro armário. Cartolina, tinta guache, pincéis, revistas. Tanta ferramenta de trabalho chamou a atenção dos olhares travessos de uma turma que transformou aquele professor em brincante.
E foi o que justamente aconteceu. A criatividade foi a palavra de ordem de um fazer pedagógico que, mais tarde, seria taxado de “bagunça” por alguns colegas. Estranhamente, a produção das crianças tão lindamente estampada em paredes e portas foi classificada de “sujeira”.
A partir dessa experiência, tomei a decisão de continuar encarando o nosso ofício como formas de invenção que pulse a linguagem interdisciplinar manifesta pela virtude necessária à criatividade. Assim, aprendi que ser professor é compartilhar aprendizados. Uma missão que enfrenta o ódio de governantes que tentam vigiar e amordaçar nossas vozes através de projetos como “escola sem partido”.
Hoje, o Brasil conta com mais de 2 milhões e 600 mil professores e professoras. Cerca de 2,2 milhões na educação básica. Na educação superior são 397 mil profissionais, dos quais mais de 100 mil em instituições federais.
As mulheres ocupam oitenta por cento dessa categoria que ainda é extremamente desvalorizada com um dos piores salários do mundo. Para se ter uma ideia, o piso salarial dos profissionais da rede pública da educação básica em início de carreira é de R$ 2.886,24, menos de três salários mínimos. A aprovação do novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), é uma importante conquista para garantir a valorização dos trabalhadores e das trabalhadoras em educação que cumprem longas jornadas em salas de aula e condições de trabalho precárias.
Diante de tantos ataques aos direitos, é preciso estar atento e forte porque o governo Bolsonaro quer mudar as regras do jogo para meter a mão nas verbas do Fundeb e desviar dinheiro da educação pública e do magistério. Podemos pensar junto com o educador Paulo Freire, “A apropriação da linguagem pelo oprimido é um ato potencialmente revolucionário”, e fazer do nosso trabalho um instrumento de luta contra toda forma de opressão.