Acervo pessoal

José Rolfran Souza Tavares, estudante de mestrado em Antropologia Social na UFRN, falou ao Coletivo Foque sobre política de cotas e preconceito na universidade.

Durante o bate-papo por telefone o orientador social soltou o verbo sobre a sua história de vida. “Eu estudei no IFRN, uma instituição pública de qualidade, que acredito ser um diferencial para a minha vida acadêmica”, diz acrescentando que no final do ensino médio estava passando por uma série de vulnerabilidades que prejudicaram bastante o seu desempenho no Enem. “Eu sou gay e nesse período estava me afirmando quando fui expulso de casa. Fiquei um bom tempo morando em casa de amigos e familiares. Fora isso, não tinha uma estrutura de acessar material, internet, computador na época. E eu só consegui o score suficiente para passar porque me encaixava como cotista, por conta da situação social, da origem acadêmica que eu vim de escola pública e porque na época me identificava como pardo. Hoje, me identifico como negro”, explica.
Ele afirma que começou a se aproximar do movimento negro já na universidade. “Aí amadureci mais esse debate. Inclusive, o que fez me compreender melhor como uma pessoa não branca foi ter entrado no IFRN, aí eu tive contato com pessoas que vinham de outras classes sociais e que em sua maioria eram brancas. Eu vi que a maioria das pessoas que vinham de escola pública eram negras”.
Rolfran conta que em 2013, durante os protestos contra o aumento da passagem foi detido em um deles, ocorrido em Parnamirim. “Eu lembro que quando os policiais me pegaram e começaram a me espancar sem eu ter feito nada, as pessoas começaram a gritar que eles estavam sendo racistas. Até aquele momento eu não me compreendia como uma pessoa negra e como um alvo preferencial para as abordagens policiais com esse tipo de truculência. Nesse mesmo dia também foram detidas outras duas pessoas e elas não foram espancadas nem humilhadas publicamente. E essas duas pessoas eram brancas”.
Bem depois, quando já estava no movimento negro e dentro da universidade foi refletir sobre esse episódio. “Aí fez sentido a denúncia que estava sendo feita nas ruas. Foi numa experiência de espancamento que pela primeira vez eu senti de forma mais incisiva o que é ser um corpo negro”.
Para Rolfran, as cotas garantiram a sua entrada na universidade por conta de todas essas vulnerabilidades da sua situação social e racial, da orientação sexual. “Esse período de transição do ensino médio para os primeiros anos da graduação foi muito delicado na minha vida, porque eu não tinha uma estrutura familiar que me apoiasse naquele momento. Por dois motivos, pela LGBTfobia mesmo, que meus familiares queriam que eu me tornasse hétero, me curasse. O outro motivo é que eles não viam nenhum sentido em que eu entrasse na faculdade para fazer um curso que na cabeça deles não ia me assegurar nenhuma estabilidade financeira. Pelo contrário, ia prolongar o meu período sem tá num trabalho assalariado”.
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Na sua família, tanto por parte de pai como por parte de mãe, ele é a única pessoa até o momento que concluiu o ensino superior em uma universidade pública. “A minha geração foi a primeira que conseguiu acessar o ensino superior. Na minha família o comum, principalmente para os homens, é quando completam 18 anos conseguir um trabalho assalariado, construir família, esse é o modelo moral que se tem”.
O jeito que estava escolhendo para viver tornou-se um projeto de vida muito caótico, tinha sido expulso de casa e sem possibilidade de entrar em um emprego assalariado por que estudava de manhã e não tinha como dedicar oito horas para um dia inteiro de trabalho. “Para a minha família isso era perder meu tempo, porque para ela formação em curso superior só fazia sentido se fosse engenheiro, médico ou advogado. Além de não ter escolhido nenhuma dessas três áreas, eu estava numa situação precária. Na visão deles eu estava querendo luxar, querendo me colocar num canto que não era meu por direito. Porque meu canto era trabalho assalariado”.
Confessa que isso gerou muito conflito com familiares. “Infelizmente, surgiram muito mais tensões, daí, queriam porque queriam que eu fosse para o mercado de trabalho. E foi graças às políticas de permanência estudantil, por mais precárias que fossem, insuficientes e que eu precisasse fazer vários remendos, que consegui me manter na universidade”.
Nesse momento ele aponta outro grande obstáculo. “As políticas afirmativas tinham que vir como políticas de permanência muito bem estruturadas e a gente não tem isso, só tem um decreto que regulamenta a política nacional de assistência social. Em muitas universidades não existe uma diretriz nacional, aí aplicam programas regionalizados e precários”. Diante de um cenário acadêmico desfavorável, teve que trabalhar em bolsas de apoio técnico durante toda a primeira e segunda graduação. “Eu tinha que prestar um serviço para a instituição para receber uma bolsa de 400 reais e era com isso que eu me sustentava”.
Rolfran expõe outra grande falha na política de assistência social da UFRN, que ignorou a sua vulnerabilidade socioeconômica naquele momento. “Não entenderam que eu tinha direito à residência porque minha família é da região metropolitana. A alternativa que deram, diante do volume muito grande de estudantes nessa mesma condição, foi conseguir a bolsa de apoio técnico e dividir com algum colega. Vivi uns três anos com uma bolsa de 400 reais. Eu só conseguia porque os pais dos meus amigos me ajudavam muito. Para conseguir concluir a minha primeira graduação tive que me virar em mil e isso prejudicou bastante minha saúde, tanto física como mental. Na época, tive problemas gástricos e de ansiedade e também fiquei com a autoestima muito abalada”.
Ele reforça que entrou na primeira geração de cotas, que foi aprovada nacionalmente em 2013 e em 2014 entraram as primeiras turmas. “A UFRN aderiu às cotas completamente como política nacional só em 2013. Não queriam pobre na universidade. Dentro dos planejamentos que faziam não tinha sentido a gente lá. Por exemplo, a gente não está conseguindo acompanhar a aula porque o professor está fazendo uma reposição de tarde, a gente está desde manhã e não tem comida. Isso é uma coisa muito cruel. E às vezes o professor não tem a sensibilidade para entender que não dá para continuar a aula se tem estudantes que estão tentando passar o dia com um biscoito Treloso ou uma pipoca Bokus. Isso até dá certo uma, duas vezes, um dia dá pra você ficar sem ter todas as refeições, mas depois de um tempo vira uma questão de adoecimento”.
Revela ainda que a sua turma teve uma evasão gigantesca de estudantes, muitos cotistas em situação de vulnerabilidade.  “A assistência estudantil que eu conheci no IFRN é muito mais presente na vida dos estudantes. Na UFRN a gente tem quase que implorar para ter direito à permanência e muita gente foi evadindo por conta disso. As pessoas que insistiam e se mantiveram estavam nessa loucura de acabar com a saúde física e mental. Eu fui uma dessas pessoas”.
Segundo Rolfran, a distribuição das bolsas de pesquisa, extensão e monitoria tem uma lógica que parece muito com apadrinhamento. “O dramático que acho nessa relação é porque esses estudantes que conseguem ler tudo, imprimir todas as xerox, são aqueles que não estão em vulnerabilidade social porque eles têm toda uma estrutura. Daí, essa galera passava os quatro anos com as bolsas e pra gente que estava em vulnerabilidade socioeconômica restava só o apoio técnico. Isso foi outra descoberta cruel que eu tive quando estava no bacharelado de Ciências Sociais, foi que bacharelado não é para pobre”.
Atualmente, Rolfran faz parte da comissão de bolsas do programa de pós-graduação em Antropologia. “O que a gente vem articulando é que as bolsas sejam distribuídas por critério socioeconômico”. Critica que a distribuição das bolsas por mérito e tempo acaba levando uma pessoa que precise se dedicar o dia inteiro para a graduação, mas não pode porque trabalha, a ser mais um estudante evadido. Em tom de desabafo, aponta que dos 13 alunos da sua turma de mestrado, mesmo com as cotas, tem apenas três estudantes negros, dois homens e uma mulher. “O programa do curso tem cotas desde 2017 e ainda não conseguiu sequer equilibrar o número”.
Quando pagou Sociologia do Brasil, ele conta que os estudantes e as estudantes negras não estavam se sentindo confortáveis com a bibliografia que tinha sido escolhida, que não tinha autor ou autora negra. “Essa bibliografia estava falando da gente, das nossas vidas, como objetos. Quando se coloca só autores brancos para falar da questão racial, obviamente, vai ser produzida uma falsa hegemonia, que no Brasil era impossível se discutir relação racial sem ser racista durante toda a história da sociologia, isso é uma mentira. É só ver autores e autoras negros e negras que estavam falando a partir dos seus interesses de uma outra forma. O enfrentamento que a gente fez nessa turma, essa tensão produzida ali era um esforço que só era possível tendo estudantes com o nosso perfil em sala de aula”.
Apesar de toda a tormenta vivida na primeira graduação, acredita que conseguiu ter um bom desempenho na universidade porque teve uma formação na educação básica muito boa no IFRN. “Porém, eu não era um estudante modelo que conseguia acompanhar todas as aulas, entregar todos os fichamentos, estar em todas as palestras por que eu não tinha os elementos que eram necessários para isso. E por isso eu nunca tive, na minha primeira graduação, oportunidade de me inserir em uma iniciação científica. Eu fui descobrindo pela vontade de fazer pesquisa e a minha experiência foi uma coisa muito autônoma, ainda no ensino médio numa base do IFRN, que é o Negedi (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação, Gênero e Diversidade).
“Você só é visto quando é para ser tratado de uma forma tutelada por aquela lógica horrível da caridade, em que as pessoas querem fingir que são boas às suas custas, ou quando é para ser perseguido. Em todos os outros momentos, geralmente, você é invisibilizado”, observa Rolfran. “É muito difícil as pessoas me verem como um intelectual, como alguém que está produzindo no campo das ciências sociais, está publicando. As pessoas têm muito mais facilidade de me ver como um coitado ou uma pessoa que tem que ser perseguida porque é pobre, preto e gay. Ou não vê, né?”
Para Rolfran, é importante que se entenda essas categorias para entender as vulnerabilidades. “Eu queria, por exemplo, que o serviço social da instituição tivesse visto tudo isso para garantir que eu fosse inserido nos programas de permanência de uma forma satisfatória e não tivesse adoecido durante a minha primeira graduação. Eu me importaria que meus professores vissem todas essas categorias para saber quais metodologias, qual didática usar para incluir pessoas como eu que estão na margem da sociedade, que são negras, LGBT e pobres, nos planejamentos das suas aulas”.
Ao falar da questão da vulnerabilidade econômica e LGBT, ele denuncia que também foi perseguido em diversos momentos por ser negro. “O que eu mais sentia era a desqualificação intelectual. É uma coisa tão medíocre que dá até vergonha de falar, mas é como se eu não pudesse produzir tão bem por conta que eu não sou branco”. Ele conta que se envolveu em alguns atos de ocupação e isso gerou processo administrativo. “A UFRN estava legitimando a arbitrariedade com grupos muito específicos, não é com qualquer grupo. Eu sentia isso como uma perseguição racializada a uma classe específica, fora outras situações de segurança bater, intimidar com arma. Isso era rotineiro”.
Rolfran conta que uma vez, na entrada do IFRN, o segurança pediu para se identificar e dizer o que ia fazer. “Eu falei que fazia parte de uma base de pesquisa, o Negedi, e estava indo ler algumas coisas na biblioteca. Ele liberou minha entrada, mas quando eu estava passando pela catraca, falou – Ei, eu estou lhe monitorando pelas câmeras, se você sair da biblioteca vou saber”. Aí entendeu porque estava sendo monitorado, era porque tinha a cor suspeita.
Já terminando o bate-papo ele fala sobre a sua reaproximação com os pais. “Meu pai principalmente, porque a minha mãe ela nunca se distanciou. Hoje a gente tem uma relação boa, consegue se entender na diferença. A situação que eu tinha quando entrei na faculdade e a que tenho agora, é radicalmente diferente. Ainda sou pobre, ainda sou negro, ainda sou gay, mas tenho uma estrutura familiar que me acolhe, tenho uma renda satisfatória para suprir minhas dificuldades. As consequências me fizeram ser mais sensível e querer fazer as coisas mudarem por não achar que outras pessoas tenham que viver tudo isso. Esse avançar pelas consequências me impactou. Eu não escrevo um texto sem considerar quem eu sou, de onde venho, como eu vivo, isso está sempre aparecendo também nos meus interesses de pesquisa. Hoje eu me dedico para isso, não só na minha profissão, na minha produção na academia, mas também nos espaços institucionais”.
No mestrado em Antropologia Rolfran está pesquisando estratégias de manutenção da vida entre mães de jovens negros que tiveram filhos assassinados.