POR LUCIANO CAPISTRANO // PROFESSOR E HISTORIADOR
Foto: Arquivo pessoal

Durante o ano letivo de 2018 a equipe pedagógica da Escola Estadual Myriam Coeli, localizada na zona norte de Natal/RN, apresentou um projeto de intervenção na escola sobre o tema da “automutilação”.

A partir de algumas situações ocorridas entre alunos foi constatado a relevância da temática. Ao final do primeiro semestre daquele ano letivo apresentei, nos três turnos, uma intervenção cênica denominada: Felicidade? Se trata de uma espécie de monólogo no qual abordo em cena a questão da depressão e a automutilação.
A ideia é inquietar o público a partir dessa questão da felicidade, tão angustiante entre nós. Ao fazer a apresentação percebi ser importante mergulhar neste universo da depressão, tantas vezes silenciada ou simplesmente ignorada por parte da família, amigos, profissionais da educação e até da saúde. Enfim, um problema que atinge uma parcela considerável dos adolescentes.
Desde então, venho sempre que possível realizando “aulas – espetáculos” em escolas de Natal, como uma maneira de trazer para a comunidade escolar essa questão da depressão juvenil como um problema a ser enfrentado por todos: família, escola, amigos e toda a comunidade. Tem sido uma experiência bem gratificante, daí, usar este espaço para partilhar um pouco das minhas inquietações sobre a temática do suicídio.
A campanha Setembro Amarelo não pode ser apenas uma data no calendário, tem que significar uma reflexão de toda a sociedade sobre políticas públicas de prevenção do suicídio. É neste sentido que faço essa escrita. O suicídio é um problema de saúde pública e como tal deve ser enfrentado.

DEPRESSÃO

Às vezes
É uma dor
Silenciosa
Sem ser dor
Chega
Invisível
Aconchega-se
No corpo, na alma
Traiçoeira
Abraça o coração
E a mente
Que não mente
Exprime-se em um mar
De vazios
De um querer viver
Impertinente
Simplesmente feliz!

A depressão é uma das portas de entrada no labirinto escuro das dores da “alma”, aquelas que chegam devagar e quando nos damos conta já estamos abraçados pelo Minotauro. O suicídio tem como uma das suas principais causas a depressão.

Um dado estarrecedor: A taxa de suicídio a cada 100 mil habitantes aumentou 7% no Brasil, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ainda segundo a OMS, o Brasil segue na contra-mão das outras nações. A taxa mundial de suicídio caiu 9,8%, estes dados fazem parte do levantamento realizado nos anos de 2010 e 2016. Enquanto ocorreu um recuo nos casos de suicídio em nível mundial, aqui foi identificado um aumento. São registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 01 milhão no mundo.
É preciso levar para as escolas e comunidades essa temática. O silêncio tem que ser rompido. Neste sentido, a família, os profissionais do ensino, precisam estar atentos a alguns sinais. Frases como: “Vou desaparecer”; “Vou deixar vocês em paz”; Eu queria poder dormir e nunca mais acordar”; “ É inútil tentar fazer algo para mudar, eu só quero me matar”… são sinais de alertas que não podem ser desprezados. Faz-se necessário um olhar mais próximo do “outro”.
Claro que estes comportamentos verbalizados não devem ser considerados isoladamente, mas não podemos achar que é simples chantagem emocional ou “frescura” de adolescente.
O isolamento associado a pensamentos suicidas é um grito de socorro! E quando se pede ajuda a postura de quem está ao lado é a do respeito. É preciso respeitar a dor do outro, levar a sério o sofrimento dito por alguém, este é o princípio do ato de ajudar, do início da prevenção ao suicídio.

Eu respeito a sua DOR

A dor… machuca
A dor… abre feridas
Invisíveis aos outros…
Eu respeito a sua DOR
A dor… caminha em abismos
A dor… provoca pensamentos suicidas!
Transforma indivíduo em homicida… de si mesmo!
A dor…
Eu RESPEITO a sua DOR
Apenas… não deixe sua DOR ditar o ponto final
Faça da sua DOR, uma vírgula, em sua VIDA!

Respeita a dor, eis o início da conversa.
Se alguém lhe pedir ajuda: Encontre um momento e um lugar calmo para ouvir; Incentive a pessoa a procurar um profissional habilitado; Fique em contato com a pessoa, acompanhe o andamento do seu estado. E se não tiver o que dizer, simplesmente abrace.
Façamos do Setembro Amarelo para além do calendário: uma inquietação em voz alta.
Finalizo deixando o número e o site do CVV – Centro de Valorização da Vida:
www.cvv.org.br ou ligue 188