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A atual pandemia da Covid-19 é uma doença causada pelo coronavirus SARS-CoV1-2, que nos obriga ao isolamento social. Por isso estamos diante de vários desafios no decorrer do dia, ou dias.

por Aluizia Freire
O primeiro seria a preocupação com a limpeza e desinfecção da casa. Hábito que já tínhamos ou precisaríamos nos preocupar cada vez mais. O simples hábito de limpar as compras que trazemos do supermercado, ou seja, passar álcool em quase tudo, ou lavar com sabão o que for possível.
Ainda em casa, lavar as mãos, deixar os sapatos do lado de fora, tomar banho logo em seguida, trocar de roupa, dentre tantos outros hábitos. Mas não é uma realidade para a maioria das pessoas, que mal tem água em casa. A limpeza nos tempos da Pandemia deveria ser para todos e todas redobrada.
A população em situação de rua é a mais afetada e desprotegida ao enfrentar a infecção, pois não dispõe de uma moradia com todos os cuidados necessários. Está entre as pessoas mais vulneráveis à doença e as  consequências da crise econômica que afeta a todos. Acredito que a população em situação de rua sente o medo com mais frequência, diferente de muita gente que está rodeada de cuidados, de condições dignas, com todo um aparato tecnológico que contribui para  não ficar exposta ao vírus, já que não precisam sair de casa diariamente.
Não podemos deixar de citar a população indígena, afetada também pelo coronavírus e o descaso do governo. Esta sofre violência constante, assim como a população em situação de rua. O fato é que os afazeres com a casa dobraram tornando a nossa rotina exaustiva.
É uma aflição receber qualquer encomenda em casa. Tem que colocar a máscara, e após recebê-la, o ideal é lavar as mãos com água e sabão ou passar álcool gel, em seguida descartar as embalagens, depois passar álcool em gel ou lavar as mãos. A saída de casa que se torna outra maratona. Se usa óculos, passar sabonete para que eles não embacem. Já que vai usar máscara. Depois, separar o álcool em gel e colocar na bolsa, calçar os sapatos e já usar o álcool em gel nas mãos. Ao chegar no supermercado, a preocupação em manter o distanciamento social, olhar para um lado e para o outro para não encostar em ninguém. Passa álcool em gel no carrinho, depois álcool em gel nas mãos.
Pior de tudo é a preocupação se os produtos estão bem higienizados, o medo do vírus está escondido por lá, portanto, podem estar infectados. Se alguém espirrar ou tossir, você acha que já está contaminada, o medo é constante. O tempo todo o medo de encostar em alguém é grande. Terminou de colocar tudo no carrinho, já passa álcool em gel nas mãos. Ao se dirigir ao caixa fica olhando se a pessoa passou álcool nas mãos, ao sair, mais álcool. Haja álcool em gel.
Ao retornar para casa começa tudo de novo, retira os sapatos, entra em casa, coloca os produtos no chão, tira a máscara, passa álcool nas mãos, tira a roupa [a vontade é tirar a roupa já na porta], corre para o banheiro e aí começa a pior parte, a maratona de dá “banho nas compras”. Primeiro lava as frutas, depois os legumes, em seguida coloca numa solução de hipoclorito com água, deixa de molho, lava os produtos, alguns passam álcool, lava as sacolas, e guarda.
Quando você termina de fazer tudo isso está exausta, esgotada fisicamente. Muitas vezes você faz sozinha, sem a ajuda de ninguém. Diante dos novos paradigmas impostos pela pandemia do coronavírus, nós mulheres somos as mais afetadas, assumimos as atividades domésticas sozinhas, uma vez que não contamos com companheiros ou companheiras na divisão de tarefas. Somos mães solo, cuidamos sozinhas dos filhos.
A rotina de quem mora sozinha também não é diferente, pois é cansativa. De acordo com a psicanálise, o medo é subjetivo e complexo, tendo em vista a singularidade do ser humano e vários fatores psicológicos são capazes de desencadeá-los diante do que já  mostramos acima. O medo é resultado do que estamos vivenciando nesse momento de Pandemia.
Segundo Dalgalarrondo (2006), o medo é caracterizado por referir-se a um objeto mais ou menos preciso. O medo toma conta da emoção que nós sentimos, o medo está associado de alguma forma à angústia, ao sentimento de pavor, que muitas vezes não conseguimos controlar. Ainda de acordo com Dalgalarrondo, o medo não é uma solução patológica mas algo universal dos animais superiores e seres humanos. O medo é um estado de progressiva insegurança e angústia, de impotência e invalidez crescentes ante a impressão iminente de que sucederá algo, queríamos evitar e que progressivamente nós consideramos menos capazes de fazer (DALGALARRONDO, 2006, p. 109).
Diante do que estamos vivenciando o medo se torna como algo incapaz de ser dominado. A capacidade de se adaptar a esta nova realidade é um dos principais aspectos a ser considerado no que nos referimos quando citamos a covid 19. Percebemos que é necessário um novo olhar que o identifique e passe a controlar o medo que sentimos. Nesse sentido, citamos Bauman, quando ele se refere que a ideia de risco está mais próxima e deve ser entendida como os “obstáculos que ficaram próximos demais para nossa tranquilidade e que não podem ser negligenciados” (BAUMAN, 2008, p. 18).
Entendemos que no atual contexto, o medo está associado a um vírus invisível, o qual não podemos enxergar sem pensar nos riscos iminentes capazes de nos deixar inertes.