por Aluizia Freire

Quando recebi a notícia que a escola iria fechar eu estava dando aula, e pensei, logo voltaremos como muita gente também pensou. Passaram mais de 100 dias e continuamos na incerteza.

Charge: Brum
Hoje fico lendo em redes sociais, assistindo ou lendo jornais, conversando com as pessoas. Para servir de consolo sempre dizemos que logo vai passar. De repente, refletimos que não sabemos como será o amanhã. Voltamos a dizer: vai passar, porque tudo nessa vida passa. Mas só aumenta o número de pessoas contaminadas, mortas, e cada vez mais rostos conhecidos, próximos, famílias sendo dizimadas. Cada notícia que recebemos é um baque, o coração acelera e fico triste. Depois dou a volta por cima e fico imaginando como estão as famílias que não podem enterrar seus mortos.

#Fica em casa X Abertura do comércio

Nas ruas, muita gente preocupada em gastar dinheiro, fazer estoque de comida. Sempre falta alguma coisa, tento adiar as compras, mas a indústria de consumo incentiva a comprar. Quando se diz fica em casa é porque o isolamento social é necessário, eu me policio e não me rendo ao consumismo. Já consegui passar meses com R$ 2,00 na bolsa, já fiquei várias vezes olhando a geladeira vazia e fiz o teste. Podemos sim passar sem consumir desesperadamente.
Eu fico observando os governantes liberando a abertura do comércio para atender os interesses do empresariado, quando muitos deles não liberam seu funcionário doente, arriscando a vida desses trabalhadores. Os empresários pressionam e os governos aceitam, afinal as grandes empresas que financiam as campanhas é quem diz o que deve ser feito. Os governos, tanto municipal como estadual, poderiam oferecer ajuda emergencial e dizer para os trabalhadores: Fica em casa. Já o pequeno empresário não tem condições de sobreviver.
Eu entendo a situação dos trabalhadores autônomos, sabemos que os governos têm condições de pagar por mais tempo o auxílio emergencial. Sabemos que muito dinheiro vai para o bolso de políticos gananciosos. Se não pagassem salários altíssimos a deputados, vereadores, senadores, juízes; se não pagassem alugueis caríssimos por prédios onde funcionam secretarias, o conhecido aluguel de elefantes brancos, sobraria mais dinheiro para as políticas sociais tão necessárias neste momento.

Aumento da violência doméstica

Nós mulheres somos as que mais sofremos nessa pandemia com a tripla jornada de trabalho. Com os filhos em casa muitas mães fazem o papel de professora. As aulas remotas tiram muito do nosso tempo, as atividades domésticas só aumentam. Muitas mulheres não contam com seus companheiros na divisão de tarefas e assumem tudo sozinhas. São trabalhos exaustivos, sem falar da violência doméstica que só aumenta.
Em março de 2020 o crescimento da violência contra a mulher no Rio Grande do Norte foi de 34% em relação ao mesmo mês de 2019 e de 72% em relação a 2018. Os registros de ameaça aumentaram 54,3%, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A casa é o lugar mais perigoso para as mulheres que agora na quarentena estão sendo obrigadas a permanecer mais tempo junto a seu agressor. No caso do feminicídio (assassinato de mulheres pelo fato de ser mulher), a maioria é praticada por companheiros das vítimas dentro de casa.
Sabemos que diante de uma crise estrutural são as mulheres as primeiras a sofrer as consequências, desemprego, redução dos salários. Estamos na linha de frente na casa, nos hospitais e hoje somos a maioria entre profissionais de saúde que estão salvando vidas diante dessa pandemia. Além do risco de vida, o medo de trazer a doença para casa é mais uma preocupação das mulheres e mães que trabalham na saúde.
O nosso país é dos mais ricos. Como mostra o dito popular: o rico cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre. Uma desigualdade social que chama ainda mais atenção e nos angustia nesse contexto de pandemia do novo coronavírus.