Peço atenção pros tambores, os tambores

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//Por Rogério Marques | Coletivo Foque

Fotografia: Rogério Marques – Fórum Social Mundial 2003 – Porto Alegre (RS).

De acordo com a história oficial o fim da escravidão no Brasil ocorreu em 13 de maio de 1888, a partir da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel. No entanto, a luta do povo negro começara tempos atrás, organizada em quilombos pelo país afora.

Muito antes da liberdade anunciada pelo império os tambores ecoavam a luta da liberdade pelos quatro cantos do país. Enquanto a Lei Áurea amarelava pelos corredores do luxuoso palácio imperial os feitores continuavam açoitando homens e mulheres de raça negra.

O racismo carregado de preconceito continua açoitando muita gente. Último país do mundo a decretar a libertação dos escravos, naquele maio de 1888, o Brasil não consegue esconder as profundas cicatrizes de uma triste história.

Assim como no mundo inteiro, em nossa pátria amada mãe gentil negras e negros continuam sofrendo na pele as cores da discriminação. Chegam a representar a maioria de desempregados, tem salários inferiores e são as maiores vítimas da violência policial.

Malcolm X já afirmara: não há capitalismo sem racismo. Nessa nova Era a escravidão usa como disfarce a mão-de-obra barata e desqualificada, o fim de direitos trabalhistas e sociais, as longas jornadas de trabalho, o assédio moral e os salários cada vez mais rebaixados.

Assim como foi com a Revolta da Chibata (1910), entre outras rebeliões, a luta contra a opressão há de ser mais forte que o açoite dos feitores. Nessa jornada de resistência a juventude cumpre papel essencial na luta contra o racismo, pois é a maior vítima da criminalização do estado e da mídia.

JUVENTUDE EM RISCO

De acordo com o Atlas da Violência, entre 2005 e 2015 no Brasil foram assassinados mais de 318 mil jovens. 2.650 por mês. 88 por dia. 3 por hora. Em média, 1 a cada 16 minutos. Este é o mapa da violência divulgado em junho de 2017 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Os estudos mostram que 47,8% das mortes de jovens entre 15 e 29 anos, em 2015, foram homicídios. Segundo a pesquisa, na faixa etária de maior risco, 15 a 19 anos, o índice de mortes é 53,8%. No Rio Grande do Norte, de 2005 a 2015, a taxa de homicídio de jovens aumentou 292,3%.

A criminalidade que põe em risco a vida da juventude no Brasil é um drama social que escancara as mazelas sociais produzidas pelo capitalismo. Sistema que escraviza assalariados com o objetivo de garantir os grandes lucros dos banqueiros e grandes empresários.

Mesmo que o assassinato de jovens venha sendo denunciado por organizações de direitos humanos e movimentos sociais, o governo brasileiro vira as costas para tal realidade, revelando total desinteresse pela questão.

O racismo é um dos principais alvos da violência policial quando o assunto é a guerra às drogas e a criminalização da pobreza. São fragrantes de violações aos direitos humanos que condena, encarcera e mata jovens negros nas periferias.

A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce

[Chico Science]

Nessa caça eterna, negras e negros são perseguidos e assassinatos nos guetos da cidade. Agora as balas fazem a vez das chicotadas das senzalas. Essa é a realidade registrada na pesquisa do Ipea: De cada 100 jovens vítimas de homicídio no Brasil, 71 são negros.

“Oh senhor cidadão,
Eu quero saber, eu quero saber
Se a tesoura do cabelo
Se a tesoura do cabelo
Também corta a crueldade”

[Tom Zé]

Baseado no Censo Demográfico do IBGE e o Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, Cerqueira e Coelho (2017) avaliam que o cidadão negro possui chances 23,5% maiores de ser assassinado. Assim, a violência que mira a discriminação pela cor da pele se agrava a cada ano com a evolução das taxas de homicídio de jovens negros.

Diante desse cenário discriminatório e criminoso resta toda a atenção pros tambores, os tambores.

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