O proibicionismo nas políticas sobre drogas: psicopatologia das mentes e dos corações

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Era de se esperar que em um Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil (CAPS ij) – especializado em atender jovens que convivem com problemas decorrentes do abuso do consumo de álcool e outras drogas – a lógica de redução de danos e da construção da autonomia pelo respeito e responsabilização crítica ocorresse de maneira natural, quase visceral.

Infelizmente nem sempre é assim, afinal, serviços, Políticas Públicas, técnicas de intervenção, enfim, tudo aquilo que atravessa a construção de uma proposta de atendimento para a população passa necessariamente pela ação direta de pessoas. E pessoas com frequência resistem à tarefa de superar as limitações de velhos modelos em nome de novas práticas, mesmo que estas sejam mais coerentes, humanas e justas.

A história que segue conta um pouco da realidade cotidiana de jovens e profissionais de saúde em um CAPS ij, onde os dilemas diários revelam um caminho ainda longo a ser trilhado no sentido da superação definitiva do modelo manicomial de se fazer “cuidados” em saúde mental.

Naquela manhã, demoramos um pouco mais para iniciar o grupo de recepção. Antes disso, me dediquei a conversar com o familiar de um dos jovens que estavam no serviço para participar do grupo que desenvolvo com a finalidade de ressignificar histórias e construir projetos de vida.

Durante aquele atendimento, uma colega me interrompeu duas vezes insistindo que precisava falar comigo. Como entendi haver alguma urgência, me dispus a encerrar aquela intervenção mais rapidamente do que gostaria e me dirigi à sala de grupos onde ocorria a recepção dos adolescentes.

A cena seria até engraçada, não fosse a gravidade do que isso representa como lógica e manutenção de uma cultura ainda punitiva, moralista e proibicionista. Uma das trabalhadoras do serviço, sentada à cabeceira da mesa, rezava o sermão digno do mais conservador dos párocos contra a autonomia dos adolescentes que, aproveitando nosso atraso, haviam saído das dependências do serviço e fumado maconha.

As duras palavras de minha colega revelavam não apenas o desconhecimento sobre o funcionamento das drogas, especificamente da maconha que fora a droga consumida, mas principalmente a necessidade de se debater com maior profundidade as contradições inerentes ao trabalho no campo psicossocial.

Entre as ideias que ela defendeu, se encontravam estes dois problemas na proposta de dispensar os adolescentes de suas atividades do dia, por um lado como forma de punição, por outro pautando-se na crença de que o efeito da maconha inviabilizaria qualquer tipo de reflexão crítica.

Se não bastasse a cena tragicômica, me vi em uma situação bastante incômoda quando minhas colegas me questionaram sobre o que eu achava daquilo tudo. No momento exato que me perguntaram o que eu sugeria fazer, percebi os adolescentes aborrecidos levantaram seus olhos e, com a mesma intensidade, me questionaram sobre qual posição adotaria, ainda que de lados e com motivações opostas às de minhas colegas.

O dilema no qual me encontrei não foi, nem por um segundo, o que fazer com os adolescentes. A resposta para isso é muito lógica para mim. De fato, acredito que nem deveria se tratar de uma questão. O real problema foi me posicionar sem causar constrangimento à minha colega e ao mesmo tempo produzir uma falsa impressão de permissividade, mas um pouco por sorte e muito por experiência a resposta me surgiu quase imediatamente:

– “Ora, se este é um lugar para tratarmos pessoas que não conseguem parar de fazer uso de drogas, então me parece que teremos que conviver constantemente com esse tipo de situação e não aceitar a presença de adolescentes sob o efeito de alguma droga é negar o motivo de ser deste serviço”.

A partir de minha autorização, o restante da manhã transcorreu sem problemas, o debate realizado no grupo abordou o evento sentinela de mais cedo e foi possível construir com os adolescentes outro entendimento sobre as implicações de se fazer uso de maconha na frente do CAPS ij. Foi possível também fortalecer meu vínculo com eles, discutir tolerância, impulsividade, enfim, diversas questões que são importantes para eles e que teriam se perdido caso tivessem sido dispensados naquela manhã.

Foucault foi entre os grandes pensadores que falaram sobre o assunto o que mais me marcou nesse sentido. Lembro-me de ler em mais de uma de suas obras que o desenvolvimento social, as mudanças nas estruturas políticas, econômicas e culturais não acontecem de forma linear, como uma ruptura abrupta no modo de se relacionar.

Pelo contrário, o novo convive constantemente com o velho e, mesmo durante os períodos considerados revoluções, a mudança ocorreu gradativamente por meio de sucessivos movimentos em direção ao diferente, ainda que constantemente enfrentando dificuldades, suprimindo o velho e sua lógica. É justamente este tipo de enfrentamento que ainda necessitamos fazer quando falamos de atenção psicossocial, talvez, mais fortemente no contexto das Políticas sobre álcool e outras drogas.

Considero esse espaço, a coluna Insurgências, de fato, mais uma trincheira na qual produziremos a resistência necessária contra os retrocessos, presentes como nunca antes, e em favor de cerrar as grades das mentes que ainda nos aprisionam.

Fonte: Justificando

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