Madeira manchada de sangue

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Acusado de ser o mandante do massacre de Colniza, Valdelir João de Souza segue foragido da justiça, o que não o impede de negociar madeira amazônica

Para homenagear as vítimas da violência no campo na Amazônia, o Greenpeace colocou 251 cruzes em frente ao Congresso Nacional – número de pessoas assassinadas no bioma entre 2007 e 2016 – para sinalizar que a violência contra a floresta e seus povos começa exatamente em Brasília. (Foto: © Lucas Sobral / Greenpeace)

No fim de semana do dia 19 de abril de 2017, quatro homens armados com facas, facões, revólveres e espingardas entraram em um ramal do Distrito de Taquaruçu do Norte, zona rural de Colniza, no Mato Grosso, com o objetivo de matar e aterrorizar a população local. O grupo de extermínio, conhecido como “Os Encapuzados”, percorreu cerca de dez quilômetros promovendo execuções e tortura. Ao todo, nove pessoas foram mortas.

Segundo denúncia do Ministério Público do Estado do Mato Grosso (MPE-MT), o ataque, que ficou conhecido como “massacre de Colniza”, foi motivado pela cobiça de madeireiros e grileiros pelos recursos existentes na região de Taquaruçú do Norte, distrito do município de Colniza.

Apontado pelo MPE-MT como o mandante do crime, Valdelir João de Souza, conhecido como “Polaco Marceneiro”, é proprietário das empresas Madeireira Cedroarana e G.A. Madeiras, responsável pelo Plano de Manejo Florestal localizado ao lado do local da chacina. A motivação do crime estaria na existência de espécies valiosas, como o ipê, jatobá e massaranduba, amplamente utilizados para construção de decks e móveis de alto valor comercial, na área de floresta em que viviam os agricultores assassinados.

Souza está foragido, mas suas madeireiras continuam funcionando normalmente, processando madeira que depois é vendida no mercado nacional e internacional. Uma investigação do Greenpeace publicada no relatório “Madeira manchada de sangue” mostrou que, de maio a agosto de 2017, a madeireira Cedroarana enviou sete remessas de madeira para os Estados Unidos. No dia em que ocorreu a chacina em Colniza, essa mesma empresa embarcou cargas de madeira para os Estados Unidos e Europa. Em 2016 e 2017, exportou milhares de metros cúbicos de madeira amazônica para países como os Estados Unidos, Alemanha, França, Holanda e Portugal.

Em protesto, ativistas do Greenpeace instalaram um banner na madeireira Pampa, próxima de Belém (PA), em 2014, com o recado “lavado para exportação”. (© Marizilda Cruppe/Greenpeace)

Graças a facilidade de fraudar os sistemas de licenciamento e controle de madeira no Brasil, cenas como as do “massacre de Colniza” estão se tornando cada vez mais comuns, especialmente na Amazônia, onde os conflitos no campo são frequentemente ligados à madeira ilegal. A pressão exercida pela indústria madeireira e pela grilagem de terras vem ameaçando as florestas da região e colocando populações rurais e tradicionais sob ameaça. São inúmeros relatos de execuções com requintes de crueldade, tentativas de assassinato e intimidação, o que gera um clima de tensão e medo na vida das pessoas que defendem a floresta.

Como afirma a extrativista Giselda Pereira Ramos Pilker, moradora da Resex Massaranduba, que fica em Rondônia, região que sofre com a violência promovida pela madeira ilegal, as ameaças constantes acabam mudando a rotina de todos que dependem da floresta: “Eu tenho orgulho de cuidar disso tudo. Tenho certeza de que não é meu, que pertence a um bem muito maior, de bilhões de pessoas. E vou lutar com todas as minhas forças até alguém me escutar”, diz.

Madeira ilegal e violência

Estados como Pará, Mato Grosso e Rondônia são responsáveis por mais de 85% da produção de madeira serrada na Amazônia. Se existisse um plano nacional de apoio ao manejo comunitário, a exploração madeireira poderia servir como fonte de renda para as populações da floresta e um meio de mantê-las na terra, em segurança, protegendo a floresta. Mas não é o que acontece. Estudos apontam que parte da madeira que entra no mercado foi explorada de áreas onde a extração não é permitida, como Unidades de Consevação de proteção integral , Territórios indígenas e áreas de manejo extrativista. Quando populações tradicionais e indígenas oferecem oposição ao roubo de madeira, acabam colocando-se na mira da violência, entre a floresta e os criminosos.

O mapa mostra a relação entre assassinatos no campo nos últimos dez anos e o Arco do Desmatamento

“A impunidade para este tipo de crime e a falta de seriedade do Estado em combater a ação de madeireiros ilegais criam um ambiente propício para que a ilegalidade prospere”, afirma Rômulo Batista, da campanha Amazônia do Greenpeace. “Diante desse cenário, fica impossível confiar na procedência da madeira brasileira, pois a cadeia está toda contaminada”, completa.

O relatório “Madeira Manchada de Sangue” faz parte da campanha Chega de Madeira Ilegal do Greenpeace, que desde 2014 investiga, denuncia e expõe casos de fraudes em nos sistemas de licenciamento e controle de madeira do Brasil. “Infelizmente, o Brasil ainda não avançou. Não temos sistemas integrados de licenciamento e controle da cadeia produtiva de madeira e planos de manejo com indícios de irregularidades continuam ativos. Até que consigamos como sociedade mudar isso, os povos que estão na linha de frente pela proteção das florestas continuarão a sofrer as consequências diretas e o restante do mundo as indiretas”, diz Batista.

Baixe o relatório aqui

Fonte: Greenpeace

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