Mais uma estatística

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Por Augusto Bierhoff

Garoto de favela, nascido e criado dentro dela;
Tinha o sonho de se tornar um atleta, imaginava-se como um Neymar, Messi com toda plateia
Um dia seu pai saiu de casa de madrugada e nunca mais voltou, quem tentou ser o pai foi o avô
Mas o aperto chegou, a mãe chorava toda noite para o Senhor

Fazia sua reza para nada faltar, um dia tinha para todos, no outro ela via que não ia dar
Pensou até em suicidar, mas tinha um filho para cuidar
O moleque muito triste quis ajudar, a malandragem veio e disse que tinha um trabalho para dar
Pensou em sua mãe em cada lágrima no chão, então pegou a quadrada na mão

Saiu se tremendo todo da favela, foi procurar a primeira vítima fora dela
No beco escuro viu uma garota entrar, pensou “melhor pessoa para enquadrar”
Foi atrás dela com calma, nem precisou tirar a arma, ela deu tudo que tinha na calça
Um celular e 100 reais foi o que deu para o garoto, saiu chorando e tremendo sem olhar
para o rosto

Ele comprou comida pra casa e vendeu o celular, de onde veio o dinheiro a mãe teve medo de perguntar
O menino já não pensava em futebol, conseguia o dinheiro para cada dia mais rápido e melhor
Foi se envolvendo com o crime cada vez mais, já nem pensava mais no seu pai
O avô tentava ajudar, mas ele nem ouvia nada do que o avó tinha pra falar

Todo dia tinha comida na mesa, até a casa já estava arrumando sem treta
A mãe ficava triste em pensar no seu bebê, sair de madrugada e nunca mais o vê
Iria ser o marido e o filho, seria seu grande amor e seu bem divino
A mãe dava conselho para sair dessa vida, mas tudo que ele queria era não ver mais chorando sua rainha

Futebol nunca mais, só queria saber de 157 rapaz
Na escola nunca mais apareceu, parecia perda de tempo “não é pra eu”
Quando foi sair para o corre, sua mãe pede para ele ficar e a lágrima escorre
Falou do seu pai e das coisas ruins, não queria que ele tivesse o mesmo fim

Não quis saber e foi seu corre fazer, foi abordar perto da DP sem saber
Ouviu a sirene e correu para se esconder, três tiros no peito e ficou na rua até falecer
Seu sangue escorria pela calçada, um criminoso sem alma
Foi assim que apareceu no jornal do burguês, sua mãe quando viu desabou mais uma vez

Uma alma perdida, um sonho roubado, uma criança sem saída escolheu o pior lado
Com tristeza ódio e rancor, sua mãe rezava ao seu senhor
Pedindo por favor para cuidar do seu maior amor
14 anos de idade de pura maldição ou mais uma vítima da opressão?

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