O COLETIVO FOQUE foi até o Sebo Vermelho e bateu um papo com o sebista e editor Abimael Silva. Nascido na cidade de Várzea (RN), no começo dos anos 70 Abimael chegou pra morar em Natal. Em 2003, aos quarenta anos, Recebeu o título de cidadão norteriograndense da Câmara Municipal de Natal. Ex-bancário, transformou a sua indenização para montar um sebo no centro da cidade. Foi assim que nasceu o Sebo Vermelho.

 

Entre um leitor e outro que chega ao sebo Abimael foi contando um pouco da sua história como sebista e editor de livros.

{O que levou você a entrar no mundo do sebo?

Abimael: Olha, eu fui bancário durante um bom tempo. O que levou exatamente a trabalhar e me envolver com o sebo foi que eu sempre quis trabalhar em livraria, sempre gostei de livros, mesmo com dificuldde para comprar e tal. Mas dentro das minhas condições financeiras sempre comprava algum livro. Natal não tinha livraria, hoje tem algumas poucas.

{Em que ano foi isso?

Abimael: Final de 85 o sebo já estava funcionando, a duras penas, numa cigarreira, na rua Vigário Bartolomeu. Funcionou ali alguns anos, depois mudou para a Metropolitana, depois para a avenida Princesa Isabel, funcionou também ali próximo ao Instituto Histórico, e, há 12 anos estamos aqui nesse prédio.

{Você chegou agora aos 300 livros editados. Fala um pouco dessa ideia de um sebo que incentiva o escritor.

Abimael: Rapaz, é uma parada duríssima, porque livro para você fazer é a coisa mais trabalhosa que existe. O retorno de livro é no mínimo a longo prazo. Não existe retorno de livro nem a médio nem a curto prazo, salvo raríssimas exceções. Há não ser quando você tem o apoio do governo municipal, estadual ou federal, ou uma lei de incentivo qualquer. Mas aqui eu sempre faço livro em parceria com os autores e dentro da condição aqui do sebo. Quando começa a estourar um pouco, faço um livro, dois livros, três. Assim a gente vai levando. É difícil, mas também é uma prova de que a gente consegue, não uma andorinha só, porque ninguém faz livro sozinho.

Todos esses livros eu sempre faço em parceria, por exemplo, com o meu capista, que é Alexandre Oliveira. Ele já fez mais de 200 capas e faz também essa roupagem, esse visual bonito e padronizado. Procuro resgatar a história do Rio Grande do Norte, mas é uma coisa dificílima. Faço por que gosto e, modesta parte, conheço razoavelmente bem a história do RN e tenho uma biblioteca razoável em casa. Gosto de tá reeditando esses livros. Por outro lado, já passou a ser um diferencial do RN, por que é o único sebo do Brasil que edita livro. O Brasil tem mil e duzentos sebos por aí, mas nenhum edita livro, e aqui o nosso edita, isso é uma coisa muito importante. Aqui, acolá, até aparece algum turista que vem exclusivamente conhecer aqui o sebo, isso é uma coisa muito boa.

{Quantos livros você tem aqui no sebo?

Abimael: Rapaz, aqui tem 30 mil volumes.

{No começo do sebo você utilizou seus livros ou comprava já com a ideia de vender?

Abimael: Eu sacrifiquei na verdade a minha biblioteca como capital inicial. Fui bancário e com o dinheiro da indenização mandei construir uma cigarreira. A única maneira era começar sacrificando meus livros. Depois de uns três meses, quando a coisa já estava começando a dar certo, o que não foi vendido eu comecei a levar de volta para casa. Tem um livro que até hoje eu tenho uma saudade danada.

{Como você vê a indústria de livros no Brasil?

Abimael: Hoje em dia o governo está incentivando demais essa questão do livro, tanto que o livro é isento de quase todos os tributos. Mas, mesmo com todas essas isenções o livro ainda é um produto caríssimo, que o cidadão comum não tem acesso. Aqui eu tenho uma linha do livro custar sempre com um preço interessante para não ficar tão distante do poder aquisitivo dos trabalhadores. As grandes editoras, que fazem livros de dez mil exemplares, os livros didáticos, que tem edição de dois milhões de exemplares, custam cerca de 150 reais. Isso é um crime contra a educação, o aprendizado, por que o cidadão vai comprar três livros numa livraria e paga o seu salário. O livro no Brasil é fora da nossa realidade, uma coisa que não tem explicação.

{É aí que entra a importância dos sebos?

Abimael: O sebo socializa um pouco o conhecimento, e democratiza também, por que o cidadão vem no sebo e pode comprar um livro de 1 real, dois, dez reais. O sebo tem toda essa diferença de fazer o livro chegar ao cidadão comum.

{Dos livros publicados pelo Sebo Vermelho, qual foi o que teve a maior tiragem?

Abimael: O que teve a maior tiragem foi o livro de Coquinho, que foi feito quinhentos e depois foi reimpresso, ou seja, saiu mil exemplares. Mas em geral eu faço edições de 30 a 300. As vezes o livro já sai com prejuízo para o editor, o autor.

{Tem algum livro que chegou aqui e você ficou com ciúme de vender, ou fez questão de guardar pela importância dele?

Abimael: Acontece, mas é o normal mesmo. No inicio eu sacrifiquei boa parte da minha biblioteca. Tem um que até hoje eu lembro, um livro sobre as cartas que Jaime Joyce mandou para a futura esposa dele. Um livro raríssimo. Só teve uma edição no Brasil, eu tinha e vendi.

{Como funciona os preços?

Abimael: Olha, depende do estado de conservação. Se for uma edição em papel jornal é um preço, se for capa dura é outro, se for uma edição com dedicatória do autor para fulano ou sicrano, também tem toda uma diferença.

{A gente está vendo um acervo muito grande, então, como é que você consegue encontrar um livro que a pessoa está procurando?

Abimael: Olha, aqui, à primeira vista, não tem nenhuma organização, mas tem uma separação de literatura brasileira, estrangeira, norteriograndense, livro de filosofia, segunda guerra mundial… claro que também eu só conheço aqui, hoje, oitenta por cento do acervo. Tem vinte por cento que fica um meio perdido.

{Entra gente aqui sem saber o que quer e pede dica de leitura, por exemplo, literatura brasileira?

Abimael: Acontece…

Os sebos existem no RN desde o começodos anos 30. Tem muito sebo que vende mil e uma outra coisa. Por exemplo, sebo de verdade não vende livro didático. Tem mais um agravante, suspeito demais, livro do governo federal, de biblioteca, muitos não querem nem saber. O sebo mesmo tem que vender livro literário.

{O que é o verdadeiro sebista?

Abimael: É aquele que conhece sua área, conhece literatura, história, e tem um controle do seu acervo. Todos os grandes sebistas só comercializam livros. Antes de virar um grande bibliófilo, José Mindlin teve um sebo em sociedade com outra pessoa. Hoje em dia tem sebo que vende gaiola de passarinho, mel de abelha. Pode até ter um sebo só de revistas, mas uma coisa específica. Não dá pra misturar tudo.

{Você deixou a profissão de bancário para viver do sebo?

Abimael: Sim. Claro que dá pra você viver de uma maneira comum. Se fosse pra querer ser nobre de poder aquisitivo, aí não tem a mínima condição.

{Então, é uma paixão também…

Abimael: Sem dúvida, até por que se não fosse eu já teria procurado algum outro meio, mas eu gosto muito.

{Dá algumas dicas de livros que tem aqui no sebo.

Abimael: Como sugestão de dica de leitura o Sebo Vermelho tem um diferencial a nível de história e literatura do RN. Você encontra aqui livro de Coquinho, de História do RN, livro de Marlene Mariz, Sérgio Trindade, Cascudo, Veríssimo de Melo. Agora mesmo lancei um livro de Moacir Cirne, que é uma das edições mais importantes do Sebo Vermelho, o número 300 das nossas edições, que é um dicionário do Folclore Brasileiro sobre o dicionário de Cascudo, explicando os absurdos que a editora cometeu. A Global, que reeditou o livro, eliminou mais de quinhentos verbetes, uma coisa absurda. Este livro é um marco, não só das nossas edições, como da literatura do RN. Tem ainda o livro Salvados, de Manoel Onofre Junior, o melhor ensaio sobre a literatura do RN.

{Manda um recado para os nossos leitores.

Abimael: A coisa mais importante é ler. Você pode ler revista em quadrinhos, pode ler Julia, Sabrina, pode ler jornal de ontem, do mês passado, pode ler bula de remédio, pode ler qualquer coisa, poesia de décima quinta qualidade, ou Fernando Pessoa, o importante é ler. tem uma frase muito importante que diz: quem não lê, mal fala, mal ouve e mal vê. Isso é uma grande verdade.

{O Sebo Vermelho fica ali, na avenida Rio Branco, centro de Natal. Passa lá!