A NOSSA REPORTAGEM foi até o restaurante A Macrobiotica, na cidade Alta, para bater um papo com o jornalista, escritor e stalinista Osório Almeida de Oliveira. Figura inconfundível, sempre de boina verde e óculos arredondados.

Vítima de erro médico, ficou cego do olho direito, em maio de 2001. Hoje ele diz enxergar apenas 60% com o outro olho. Esse comunicador multimídia nasceu em São José de Campestre, no dia 12 de novembro de 1947. É do signo de escorpião. Osório mora com a mãe, dona Helena Germano de Almeida.

No ano de 1968 Osório viaja para o Rio e Janeiro, levado por Jesiel Figueiredo, para participar do 5º Festival Nacional de Teatro do Estudante. Foi e ficou lá na cidade maravilhosa até 1974. Tudo começou quando eu cheguei da estrada. Em 1968 peguei aquela agitação todinha, aquela movimentação estudantil, eu comia no calabouço [restaurante onde estudantes se concentravam em manifestações contra a Ditadura. No dia 28 de março, durante a repressão a uma passeata, a Polícia Militar invadiu o restaurante e o comandante da tropa da PM, aspirante Aloísio Raposo, atirou e matou o estudante Edson Luís com um tiro a queima roupa no peito]. A resistência à ditadura começou ali. Antes da morte daquele estudante não havia nenhuma animosidade a ponto de estudante querer pegar em arma. Mas ali foi a declaração de guerra. Então, a sociedade civil organizada juntou-se e disse: não tem mais acordo com esse regime.

Crise de identidade
Nesse período, trabalhou no mercado de capitais, uma injeção de dólares violenta que os Estados Unidos faziam para sustentar a ditadura militar. Só que eu entrei numa crise existencial, a famosa crise de identidade, por que eu via nos carros um decalque dizendo: Brasil, ame-o ou deixe-o. Ai eu procurei saber o que significa isso e soube que estava havendo guerrilha no Araguaia, que vários grupos de esquerda estavam lutando. Aí eu disse: rapaz, alguma coisa não vai bem no Brasil, vou cair fora. Foi difícil, por que largar tudo aquilo que eu tava gostando, eu morava no baixo Lebron, tinha vencido na vida financeiramente. Eu era aquele personagem do Ouro de Tolo, de Raul Seixas, aí fui pra estrada. Tinha jogado meus documentos fora e assumido o nome de HO, era o Ho Chi Minh da guerra do Vietnam.

Em 1974, depois de comprar um livro no Alecrim, no sebo de Jason Torres, eu vi um livro com o meu nome, comprei e fui estudar quem era Osório. Foi então que descobri que estava andando pra trás. Resolvi jogar o nome de HO fora e assumi o meu nome: Osório Almeida de Oliveira. A partir daí voltei a ser quem eu era.

Em 1976 Osório foi trabalhar como jornalista na Tribuna do Norte. Em 1978 trabalhou no jornal A República, chegando a ser editor do jornal O Contexto. Em 1980 foi para o jornal Folha da Manhã, do ex-senador Carlos Alberto, que depois viria a ganhar a concessão da TV Ponta Negra. Nesse momento Osório revela:

Se vocês não sabem, aquela concessão foi por causa da bomba do Rio Centro, por que nenhum deputado brasileiro aceitou defender os militares naquele processo. Aí sopraram: chama um cara do RN, chamado Carlos Alberto, que ele topa. Ele topou, mas em troca da concessão da televisão. Aquela televisão vale isso.

Deixou a função de editor do jornal O Contexto por que foi denunciado por um colega de não ter diploma de jornalista.

O político
Osório já foi candidato a deputado estadual, em 1982, pelo PMDB, de onde  saiu  para  ajudar  a fundar  o PSDB,  onde  passou   12   anos.Quando Geraldo Melo entrou no PSDB, aí eu achei que já não dava pra mim, saí. Fez uma opção mais radical e se filiou ao PCdoB, onde passou um ano.descobri que o PCdoB não era mais aquele comunismo que eu esperava. Antes de entrar no PSOL passou pelo PDT de Brizola.Hoje estou no PSTU, afirma.

O jornalista independente
Vi que a grande imprensa não fazia o jogo democrático que eu esperava que fosse a função do jornalismo. Partir para fazer um jornalismo alternativo e criei o jornal mensal Hangal, que durou 26 edições. Depois veio o Auto-edição, que durou 86 edições, e o De Esquerda, que segundo Osório durou mais outro tanto. Foram mais de vinte anos produzindo jornalismo alternativo.

Osório diz que largou o jornalismo por se decepcionar com a imprensa. Para ele a imprensa pode ser o quarto poder no primeiro mundo, nos Estados Unidos e na Europa, mas no terceiro mundo não. O que você acha de um quarto poder que come na mão dos três poderes?

O escritor
Como ser escritor sem um patrocinador no Brasil? Muito difícil. Então, comecei a publicar a minha obra em fascículos grampeados, chamados de opúsculos. Cheguei a lançar trinta opúsculos que eu transformei em livros. Juntando tudo deu dez livros. Hoje são 13 títulos publicados por conta própria.

O artista multimídia
Artista multimídia, eu me expressava pelo jornalismo, pela literatura e pelas artes plásticas. Passei dois anos expondo pelo Brasil como artista plástico. Se me expressava através das imagens com desenhos, então passei a ser fotógrafo amador. Tanto que o meu livro de fotografia não é profissional. É um trabalho amadorístico.

Ele denuncia que o amadorismo no Brasil é tido como uma coisa menor e defende a causa com a rebeldia de sempre. Eu não vejo problema nenhum em ser amador.

O que você gostaria de dizer que ainda não teve oportunidade
de expressar publicamente?
Como disse Karl Marx, as idéias dominantes de uma sociedade são as idéias da classe dominante, então a classe que está dominando impõe as suas idéias. Eu nunca tive a oportunidade de dizer isso, agora digo, a universidade brasileira precisa fazer uma autocrítica severa e assumir todas as culpas dos males que a sociedade contém.

Esquerda e desilusão ideológica
O Millôr Fernandes diz que jornalismo é oposição, o restante é secos e molhados, portanto, a razão do Diário de Natal, a rádio O Poti ter acabado, é por que praticavam um jornalismo chapa branca, de ficar só promovendo o ôba, ôba. A mesma coisa aconteceu com os partidos comunistas, que jogaram fora toda a sua ideologia.

Algumas pessoas dizem que o problema do Brasil é econômico. Se o Brasil fosse um Haiti, um Equador, aí teria problema econômico, mas o Brasil é podre de rico. O problema é que a política está nas mãos de pessoas criminosas.

O Brasil conseguiu a sede das olimpíadas para o Rio de janeiro por que prometeu 300 bilhões de reais, mas veja o que aconteceu no Rio de Janeiro ontem (07/10), lá na Baixada Fluminense várias estações foram depredadas por que o trem não funcionou. Então, copa do mundo, olimpíadas, nada disso vai resolver a situação do Brasil se o governo não investir em educação, saúde, pleno emprego. A insegurança é uma conseqüência disso.

O que será das próximas gerações?
Hoje o fim do mundo não vem através da bomba atômica, mas das condições ambientais adversas. O cientista inglês James Lovelock diz que a humanidade só tem mais duzentos anos, devido ao aquecimento global. Você vê em Manaus, a fumaça está prejudicando milhares de pessoas. As queimadas, todo o inverno, todo o verão brabo no mundo hoje, as florestas pegam fogo assim, como diz o matuto, automaticamente. Quem está fazendo isso é a humanidade. Hoje a filosofia anda lá atrás e a tecnologia na frente. Que progresso é esse que acaba com a humanidade?

Por causa de um erro médico você ficou cego de um olho,
quer falar sobre isso?
A categoria profissional que tem mais espírito de corpo no Brasil é o médico. Em 2001 eu perdi um olho por conta de um erro médico, não acidental, mas proposital. Fui torturado na sala de cirurgia do Hospital Universitário Onofre Lopes. Passei quatro dias e meio internado, com uma fila de médicos estudando meu olho. Apalpando, botando luz forte em cima. Quando não aguentava mais encarar a forte luz teve um que falou todo chateado: assim não dá, você não esta colaborando. Depois de muita luta, fui operado em vão, pois fiquei cego do olho direito. Hoje eu só vejo 70% pelo outro olho. Não consigo ler mais nada. Ando com dificuldade. Espero ser candidato a deputado estadual pelo PSTU em 2010, se ganhar meu primeiro projeto vai ser trazer a Associação das Vítimas de erro médico pra Natal, por que as vítimas de erro médico aqui estão completamente sem proteção. A impunidade aqui com relação a isso é total.

Diga lá algo que você acha que vale a pena.
Nem tudo está perdido. Já que o ensino faliu, está aí o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) que não me deixa mentir, o jornalismo ainda podia ser a salvação da lavoura. Já que o RN é o estado que tem mais analfabeto, que a imprensa assuma para si o dever de conscientizar o povo. Que esse jornal, O Coletivo, seja um farol que vai iluminar esse novo caminho.