Com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), produzimos uma reportagem especial sobre as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho. Convidamos a pesquisadora Rosângela Cavalcanti, mestranda em Serviço Social – UFRN, militante do Movimento Mulheres em Luta e da Secretaria de Mulheres do PSTU para discutir sobre o assunto.

No Brasil fatores como Gênero Reforçam as desigualdades

Segundo o IBGE as mulheres recebem em média ¾ do salário dos homens

No Brasil, mesmo obtendo a maioria dos diplomas de curso superior, elas ainda ganham menos, ocupam menos cargos de chefia e passam mais tempo cuidando de pessoas ou de afazeres domésticos do que os homens.

De acordo com o IBGE, em 2017 as mulheres continuaram a trabalhar 20,9 horas por semana em afazeres domésticos e no cuidado de pessoas, quase o dobro das 10,8 horas dedicadas pelos homens.

Os dados do IBGE indicam que as mulheres pretas ou pardas são as que mais se dedicam aos cuidados de pessoas e/ou aos afazeres domésticos, com o registro de 18,6 horas semanais em 2016.

De acordo com Rosângela Cavalcanti, ao analisarmos as condições de vida das mulheres negras no Brasil, é impossível não comentar da história que nos trouxe até aqui: o período escravocrata brasileiro e as condições das mulheres negras nesse processo.

Para Rosângela, neste período a dignidade da vida humana de negras e negros sequer existia: não eram respeitados seus costumes, suas tradições e, se formos ainda mais distantes, se levarmos em consideração que eram retirados das suas origens e vendidos como uma outra mercadoria qualquer, sequer eram vistos como humanos.

“Essa herança histórica é refletida até hoje, seja na marginalização em que as mulheres negras estão, seja pelo racismo, um ponto central e estrutural a nossa sociedade, pois é através dele que mesmo entre nós mulheres, já exploradas, já vítimas desse sistema, das desigualdades, que haverá o aprofundamento dessas opressões”, afirmou.

Observa-se que o indicador pouco varia para os homens quando se considera a cor ou raça ou região de residência.

Proporção de ocupados em trabalho por tempo parcial, na semana de referência, por sexo (%)

Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continua (2016)

Na maioria da vezes as mulheres precisam combinar trabalho remunerado com afazeres domésticos e cuidados, em muitos casos acabam por trabalhar em ocupações com carga horária reduzida.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em comparação com os homens, as mulheres ainda têm mais de o dobro de chances de serem trabalhadoras familiares não remuneradas. Isso significa que elas contribuem para um negócio familiar voltado para o mercado, muitas vezes sujeitas a condições de emprego vulneráveis, sem contratos escritos, respeito pela legislação trabalhista nem acordos coletivos.

Para Rosângela os dados comprovam que as condições das mulheres no mercado de trabalho atualmente fazem parte de um sistema político, social e econômico que justamente possui essa funcionalidade: explorar, oprimir, dividir e hierarquizar os sujeitos.

As desigualdades de gênero também estão presentes em cargos de gestão. As mulheres continuam a enfrentar barreiras do mercado de trabalho para acessar estes postos.

No Brasil, 62,2% dos cargos gerenciais eram ocupados por homens e 37,8% pelas mulheres, em 2016.

Em todas as faixas etárias havia uma maior proporção de homens ocupando os cargos gerenciais, o que se agravava nas faixas etárias mais elevadas.

Além disso, a desigualdade entre mulheres pretas ou pardas e os homens pretos ou pardos era maior do que entre as mulheres brancas e os homens brancos. Assim, muito embora as mulheres constituam mais da metade da população brasileira, o fato de estarem sub-representadas em tantas esferas da vida pública no país reforça a necessidade de políticas voltadas para a redução das desigualdades de gênero anteriormente identificadas.

Cargos gerenciais, por sexo, segundo os grupos de idade e cor ou raça (%)

Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continua (2016)
Segundo nossa entrevistada somente com a mudança radical do atual sistema, com uma outra forma de organização da produção, o que implica diretamente na ressignificação dos trabalhos, assim como na socialização desta mesma produção seria possível vislumbrar um mundo sem tamanha desigualdade. “Que atualmente, não é possível nem aqui no Brasil, nem em nenhum outro lugar do mundo, pois o nosso principal inimigo, digamos assim, ainda é o capitalismo”, afirmou Rosângela.