enoque-150x150por Enoque Vieira
Historiador, Especialista em Antropologia e boêmio do Beco da Lama

Vivemos um tempo um tanto irreal.
Parece que a virtualidade está tomando conta da realidade.

 

Fui para a abertura da Jornada Pedagógica da Rede Estadual de Ensino. O nome da jornada é muito longo, mas sei bem que fala numa tal de escola aprendente. Fui por ter interesse pelo tema e por ser professor da rede.

Chegando lá me deparo com uma secretária que tanto parece ser um personagem virtual como também parece viver em um mundo imaginário, ilusório, criado a partir dos seus cálculos de índices educacionais. Bem sabemos que a secretária somente fala nisso; e sempre com repetição.

Havia uma plateia amorfa, formada por gestores e gestoras de escola, gente do apoio pedagógico das escolas, sendo muitos indicados, apontados, pela senhora secretária para estar lá, e, por fim, gente lá de dentro da SEEC.

Estive lá por atrevimento, não fui convidado.

Esperava uma jornada pedagógica com debate, discussões e indicações de caminhos no sentido de qualificar o fazer do docente e melhorar o aprendizado dos estudantes.

O que vi e ouvi foi anúncio de mercado* e a defesa intransigente, por parte da secretária, do aumento da carga de trabalho para os professores.

*Não compreendi a presença de um jovem de nome João, falando em nome de uma universidade privada, apresentando umas cartilhas, que não foram mostradas nem tornadas públicas, e oferecendo-se para ir às escolas implantar o sistema diferencial que as cartilhas ofereciam. O rapaz, certo de que estava tudo certo, anunciou o número do seu telefone particular para que a plateia anotasse.

*Bem sabemos que o mercado não trabalha de graça.

Fiquei assustado quando a secretária defendeu que os professores e as professoras trabalhassem 24 horas aula por semana. E fiquei sem entender quando parte da plateia, como disse, na jornada havia uma plateia, comportando-se feito uma claque a aplaude, e alguns com entusiasmo. Assustei-me! Pois bem sei que todos e todas são professores e professoras, e que quando saírem da gestão voltarão à sala de aula com sua carga de trabalho aumentada.

Fiquei estarrecido quando a secretária disse que fazia isso, ou seja, defendia o aumento da carga de trabalho do magistério, para cumprir a lei. Ora, mas em que mundo vive a secretária? Será que ela se lembra que, no alto do seu cargo ela vem descumprindo a Constituição Federal quando, na sua letra diz que é dever do Estado prover educação gratuita e de qualidade para todos e todas? Ao que parece a secretária, desde que assumiu o cargo no alto escalão do governo, não foi às escolas da periferia das nossas cidades, bem como não visitou as escolas dos nossos grotões, do sertão mais longínquo. Nelas, o descumprimento às leis é cotidiano e corriqueiro.

A secretária, que é pedagoga e atuou como coordenadora pedagógica, vive do seu próprio ID. Enquanto isso, na realidade real: Escolas caem. Muitas escolas não têm equipamentos necessários e adequados. Em muitas escolas faltam professores de todas as áreas de conhecimento. Muitos professores e professoras estão assoberbados com o excesso de trabalho, adoecendo, adquirindo doenças de ofício, enfrentando situações de violência nas redondezas e dentro das escolas. O piso nacional salarial é considerado teto pelo governo. E ainda vem uma secretária querer aumentar a carga de trabalho dos professores e professoras e retirar-lhes o direito de planejar suas ações.

Eita lasqueira! O mundo está mesmo de pernas viradas. Mas como dizia o personagem virtual, criado pelo folhetim vespertino da Rede Globo: “Não tem nada de ruim que não possa piorar”

Mas, não nos conformemos! Ainda nos resta a indignação e a desobediência. Como no filme Toy Story.