Por Sandra S. F. Erickson

“Se você é capaz de tremer de indignação
a cada vez que se comete uma injustiça
no mundo, então somos
companheiros” (Comandante Ché)

A história da resistência do Tibete contra a ocupação colonial da China desde 1949 é por demais complexa para caber num texto breve. Há muita desinformação na mídia e mesmo nas instituições formais de ensino, pois, um dos projetos mais caros dos chineses é a reescrita da história, geografia e mesmo antropologia do Tibete, de forma que a autonomia que o Tibete gozou por séculos seja desfigurada e mesmo falsificada com a violência de todos os produtos “made in China”. Os mapas do mundo são distorcidos, de modo, que Tibete, o décimo maior país do mundo, aparece apenas como uma das cinco partilhas territoriais denominada pelo PCC (Partido Comunista Chinês) Região Autônoma do Tibete, que é, como o resto do território tibetano, governado pelo PCC e não autonomamente, por tibetanos independentes da tutela chinesa.

Os tibetanos chamam sua terra de བོད (Bhö), “Terra da Neve”, porque se localiza no topo do Himalaia (sânscrito: morada da neve), a mais alta cordilheira de nosso planeta. Os primeiros europeus a chegarem no Teto do Mundo foram os portugueses. A primeira visita documentada ao Tibete foi a de dois missionários jesuítas, António de Andrade e Manuel Marques, em 1624. Em 1627, outra missão portuguesa chegou ao Tibete via Índia, liderada pelos missionários cristãos João Cabral e Estêvão Cacella que estabeleceram uma missão em Shigatse em 1628, com o consentimento do então Panchen Lama. Por causa de sua altitude e localização, foram raros os visitantes que chegaram ao topo do Himalaia e o Tibete viveu praticamente isolado durante boa parte de sua história até a II Guerra Mundial quando os ingleses, que ocupavam a Índia, enviaram missões e, ao modo sempre dos europeus, tentou invadir e ocupar militarmente o Tibete. Os próprios chineses sempre se mantiveram longe do platô tibetano porque o ar altamente fino das altíssimas montanhas dificulta imensamente a sobrevivência de “outsiders”.

Até a II Guerra, o Tibete existia no imaginário europeu como a terra encantada e paradisíaca de Shagri-la. Os tibetanos tinham seus problemas e suas injustiças, mas um governo, moeda, selo, bandeira, etnia, biologia, geografia, história, relações internacionais (etc.) independentes da China. Por ocasião da invasão chinesa, o alpinista austríaco Heinrich Harrer (1912-2006) se encontrava no Tibete e escreveu o aclamado livro Sete anos no Tibete (1952), transformado no filme (1997) de Jean-Jacques Annaud (estrelado por Brad Pitt). Outro filme que trata da história do Tibete é Kundun, (também 1997) de Martin Scorsese, desde então considerado persona non grata na China.

Até a invasão e ocupação chinesa o Tibete desfrutava de uma cultura riquíssima, exótica; suas ciências eram em muitos aspectos mais adiantadas do que as ocidentais. Fundada na procura e manutenção da paz interior e no convívio fraterno com todos os seres vivos sem exceção, seus bens materiais eram escassos e seu governo um tipo bizarro (do ponto de vista ocidental) de teocracia (o budismo não é teísta), mas seu povo era feliz e sabia que era feliz. Era feliz porque não acreditava, como budistas, que a vida fenomenal é outra senão sofrimento, conforme a Primeira Nobre Verdade pregada por Sidarta Gautama, o Buda. A palavra tibetana para corpo é que significa “algo que é deixado para trás”, assim, os tibetanos não se interessaram em tornar mais confortáveis as condições externas de suas vidas, contentando-se em ter alimento, agasalho, teto e dedicar-se ás suas práticas religiosas. Seu estilo de vida simples e rústico é mérito e não demérito. Não deviam a ninguém e nem dependiam de ninguém, nem de seu próprio governo: eram nômades, indo e vindo onde queriam em vasto território. Não foram causa das devastações ambientais e desequilíbrios ecológicos nem do egológico consumismo desenfreado da “civilização” ocidental, império do capitalismo suicida e mórbido que ameaça nosso planeta de extinção. Nunca houve fome, nem sem tetos no Tibete antes de 1949.

O Tibete era um país e uma nação LIVRE até a invasão e ocupação da China (1949 até o presente). A China conseguiu ocupar e dominar o país com relativa facilidade porque: 1. o Tibete, por ser um país budista e pacifista, não possuía um exército, apenas uma guarda de fronteiras muitíssimo mal equipada e sem treino ou experiência militar, e 2. depois da revolução maoísta os chineses foram chegando aos poucos no Tibete com sorrisos e presentes, inclusive para os monastérios, pregando a “irmandade socialista”, chamando os tibetanos de irmãos e dizendo querer apenas beneficiar todos os povos. Essa ideologia combina com o budismo e, a princípio, os tibetanos ficaram confusos, tendo muitos acreditado nesse trágico conto de fadas utilizado pelo PCC. O exército chinês começou imediatamente a construção de estradas para “facilitar as peregrinações” que são partes integrantes das práticas culturais do Tibete, retribuindo o trabalho dos que eram voluntários para o bem de todos com “doações” aos “irmãos” tibetanos. Aos poucos, os “irmãos” maoístas enviaram contingentes cada vez maiores de tropas para “proteger” os irmãos tibetanos e liberá-los dos invasores ocidentais (havia somente cinco ocidentais em todo o Tibete). Os tibetanos, claro, ficaram confusos, mas como os chineses eram seus vizinhos “irmãos”, davam presentes a todos, inclusive aos monastérios de seus lamas, e pregavam o bem da humanidade, era difícil desenvolver uma política beligerante até porque, 1. são educados a proteger a vida de todos os seres vivos, sem exceção e 2. não tinham exército formal. A ficha foi caindo, mas, sem armas, era praticamente impossível proceder à expulsão dos chineses de sua terra. O projeto de construções de estradas logo se transformou em “campos de concentrações”, as crianças tibetanas foram abduzidas para campos de “re-educação”, os administradores locais, regionais e nacionais foram assassinados, torturados e , em tribunais organizados pelos cadres e sob as baionetas do PCC por “atividades subversivas” e qualquer dissidência considerada crime contra a liberação do povo que o Grande Lama, Mao TseTung estava realizando na Terra da Neve.

Durante alguns anos, o governo tibetano tentou trabalhar com a China maoísta, acreditando que os ideais comunistas de Mao resultariam numa solução adequada e justa para as demandas de autonomia e soberania do povo tibetano, já que, tudo o que Mao queria era beneficiar o povo do Tibete, e os ideais comunistas casam muito bem com o budismo. A presença cada vez mais ostensiva do exército chinês e suas brutalidades começou a se tornar cotidiana e permanente. As tentativas armadas de impedir os chineses de consolidar a ocupação do Tibete fracassaram e culminou no exílio de SS, o XIV Dalai Lama e seu ministério para a Índia em 1959. O governo do Tibete reside em Dharamsala, norte da Índia, onde se mantém a maior comunidade de tibetanos no exílio. Até 1959 1.6 milhões de tibetanos foram assassinados pelo exército de liberação da China.

O povo do Tibete sofre os maiores e mais escandalosos abusos de direitos humanos na história moderna: prisões arbitrárias pelo simples fato de falarem sua língua, portarem sua bandeira ou mesmo as cores de sua bandeira, proferirem o simples nome do Dalai Lama! Campanhas constantes e intensas de “re-educação” da população, tortura e assassinato inclusive de monges e monjas que pregam e praticam a religião do Buda: compaixão, bondade e respeito por todas as formas vivas e todos os seres incluindo seus algozes chineses; as mulheres tibetanas foram esterilizadas para diminuir a população do país e facilitar o projeto de reterritorialização da etnia Han ao platô tibetano, os milenares monastérios saqueados, bombardeados, incendiados e destruídos, juntamente com tesouros incalculáveis de arte (arquitetura, escultura, literatura, teatro, música, pinturas, danças, máscaras, murais) e ciências (medicina, astrologia, psicologia, física, matemática), seu delicado ecossistema depredado a ponto de ameaçar seriamente as geleiras do Himalaia e o clima de todo o planeta. Essas são algumas das práticas violentas típicas de todos os tiranos e todos os colonizadores da História empregadas pelos irmãos chineses no Tibete.

O governo do Tibete obteve exílio na Índia onde mantém, desde 1959, seu governo. Até 2011 o XIV Dalai Lama, era seu líder temporal e religioso, em conformidade com a milenar tradição tibetana. Em 2011, SS, o XIV Dalai Lama, abdicou de seu poder temporal, tendo sido realizada, em conformidade com seu desejo e liderança, uma eleição na qual os tibetanos exilados (Europa, Américas, etc.) elegeram como Primeiro Ministro (Kalon Tripa), o advogado graduado em Harvard University (US), Lobsang Sangay. Atualmente a Comunidade Tibetana no Exílio é administrada por um sistema parlamentar cuja sede continua a ser a cidade de Dharamsala.

O Tibete é um dos acervos culturais maiores do mundo. Sua arte é sagra, mas não é preciso apreciar o budismo praticado pelos lamas e/ou xamanismo Bon das tribos nômades para captar o valor e os feitos estéticos extraordinários da Arte do Tibete. A pintura, o desenho em várias texturas e materiais como tecidos, pedras e areia (mandalas), danças, teatro, poesia, música, escultura, máscaras, arquitetura, poesia, filosofia, são monumentos preciosos da humanidade e são campos de pesquisas que interessa a todos nós. Sua destruição pelos chineses é um crime hediondo. O Tibete é riquíssimo em artes performáticas: vários tipos de óperas e operetas, musicais, teatro de sombras, fantoches, de máscaras de uma variedade e complexidade estética impressionante! Muitas dessas formas, hoje em dia, são passadas como “chinesas”, como os espetáculos apresentados na Casa de Ópera de Sichuan (Tibete Ocupado). O Governo do exílio procura manter a identidade cultural tibetana através de várias iniciativas como a criação do TIPA: Instituto Tibetano de Artes Performáticas.

A luta anti-colonial e a denúncia das violações dos direitos humanos e territoriais do Tibete sob a tutela do PCC interessa a todos os que desejam um mundo livre do colonialismo e dignidade, respeito e integridade física, psíquica e política para todos os seres vivos de nosso planeta. NÃO AO GENOCÍDIO: FREE TIBET!