Abmael Silva e o sebo vermelho

 

O COLETIVO FOQUE foi até o Sebo Vermelho e bateu um papo com o sebista e editor Abimael Silva. Nascido na cidade de Várzea (RN), no começo dos anos 70 Abimael chegou pra morar em Natal. Em 2003, aos quarenta anos, Recebeu o título de cidadão norteriograndense da Câmara Municipal de Natal. Ex-bancário, transformou a sua indenização para montar um sebo no centro da cidade. Foi assim que nasceu o Sebo Vermelho.

 

Entre um leitor e outro que chega ao sebo Abimael foi contando um pouco da sua história como sebista e editor de livros.

{O que levou você a entrar no mundo do sebo?

Abimael: Olha, eu fui bancário durante um bom tempo. O que levou exatamente a trabalhar e me envolver com o sebo foi que eu sempre quis trabalhar em livraria, sempre gostei de livros, mesmo com dificuldde para comprar e tal. Mas dentro das minhas condições financeiras sempre comprava algum livro. Natal não tinha livraria, hoje tem algumas poucas.

{Em que ano foi isso?

Abimael: Final de 85 o sebo já estava funcionando, a duras penas, numa cigarreira, na rua Vigário Bartolomeu. Funcionou ali alguns anos, depois mudou para a Metropolitana, depois para a avenida Princesa Isabel, funcionou também ali próximo ao Instituto Histórico, e, há 12 anos estamos aqui nesse prédio.

{Você chegou agora aos 300 livros editados. Fala um pouco dessa ideia de um sebo que incentiva o escritor.

Abimael: Rapaz, é uma parada duríssima, porque livro para você fazer é a coisa mais trabalhosa que existe. O retorno de livro é no mínimo a longo prazo. Não existe retorno de livro nem a médio nem a curto prazo, salvo raríssimas exceções. Há não ser quando você tem o apoio do governo municipal, estadual ou federal, ou uma lei de incentivo qualquer. Mas aqui eu sempre faço livro em parceria com os autores e dentro da condição aqui do sebo. Quando começa a estourar um pouco, faço um livro, dois livros, três. Assim a gente vai levando. É difícil, mas também é uma prova de que a gente consegue, não uma andorinha só, porque ninguém faz livro sozinho.

Todos esses livros eu sempre faço em parceria, por exemplo, com o meu capista, que é Alexandre Oliveira. Ele já fez mais de 200 capas e faz também essa roupagem, esse visual bonito e padronizado. Procuro resgatar a história do Rio Grande do Norte, mas é uma coisa dificílima. Faço por que gosto e, modesta parte, conheço razoavelmente bem a história do RN e tenho uma biblioteca razoável em casa. Gosto de tá reeditando esses livros. Por outro lado, já passou a ser um diferencial do RN, por que é o único sebo do Brasil que edita livro. O Brasil tem mil e duzentos sebos por aí, mas nenhum edita livro, e aqui o nosso edita, isso é uma coisa muito importante. Aqui, acolá, até aparece algum turista que vem exclusivamente conhecer aqui o sebo, isso é uma coisa muito boa.

{Quantos livros você tem aqui no sebo?

Abimael: Rapaz, aqui tem 30 mil volumes.

{No começo do sebo você utilizou seus livros ou comprava já com a ideia de vender?

Abimael: Eu sacrifiquei na verdade a minha biblioteca como capital inicial. Fui bancário e com o dinheiro da indenização mandei construir uma cigarreira. A única maneira era começar sacrificando meus livros. Depois de uns três meses, quando a coisa já estava começando a dar certo, o que não foi vendido eu comecei a levar de volta para casa. Tem um livro que até hoje eu tenho uma saudade danada.

{Como você vê a indústria de livros no Brasil?

Abimael: Hoje em dia o governo está incentivando demais essa questão do livro, tanto que o livro é isento de quase todos os tributos. Mas, mesmo com todas essas isenções o livro ainda é um produto caríssimo, que o cidadão comum não tem acesso. Aqui eu tenho uma linha do livro custar sempre com um preço interessante para não ficar tão distante do poder aquisitivo dos trabalhadores. As grandes editoras, que fazem livros de dez mil exemplares, os livros didáticos, que tem edição de dois milhões de exemplares, custam cerca de 150 reais. Isso é um crime contra a educação, o aprendizado, por que o cidadão vai comprar três livros numa livraria e paga o seu salário. O livro no Brasil é fora da nossa realidade, uma coisa que não tem explicação.

{É aí que entra a importância dos sebos?

Abimael: O sebo socializa um pouco o conhecimento, e democratiza também, por que o cidadão vem no sebo e pode comprar um livro de 1 real, dois, dez reais. O sebo tem toda essa diferença de fazer o livro chegar ao cidadão comum.

{Dos livros publicados pelo Sebo Vermelho, qual foi o que teve a maior tiragem?

Abimael: O que teve a maior tiragem foi o livro de Coquinho, que foi feito quinhentos e depois foi reimpresso, ou seja, saiu mil exemplares. Mas em geral eu faço edições de 30 a 300. As vezes o livro já sai com prejuízo para o editor, o autor.

{Tem algum livro que chegou aqui e você ficou com ciúme de vender, ou fez questão de guardar pela importância dele?

Abimael: Acontece, mas é o normal mesmo. No inicio eu sacrifiquei boa parte da minha biblioteca. Tem um que até hoje eu lembro, um livro sobre as cartas que Jaime Joyce mandou para a futura esposa dele. Um livro raríssimo. Só teve uma edição no Brasil, eu tinha e vendi.

{Como funciona os preços?

Abimael: Olha, depende do estado de conservação. Se for uma edição em papel jornal é um preço, se for capa dura é outro, se for uma edição com dedicatória do autor para fulano ou sicrano, também tem toda uma diferença.

{A gente está vendo um acervo muito grande, então, como é que você consegue encontrar um livro que a pessoa está procurando?

Abimael: Olha, aqui, à primeira vista, não tem nenhuma organização, mas tem uma separação de literatura brasileira, estrangeira, norteriograndense, livro de filosofia, segunda guerra mundial… claro que também eu só conheço aqui, hoje, oitenta por cento do acervo. Tem vinte por cento que fica um meio perdido.

{Entra gente aqui sem saber o que quer e pede dica de leitura, por exemplo, literatura brasileira?

Abimael: Acontece…

Os sebos existem no RN desde o começodos anos 30. Tem muito sebo que vende mil e uma outra coisa. Por exemplo, sebo de verdade não vende livro didático. Tem mais um agravante, suspeito demais, livro do governo federal, de biblioteca, muitos não querem nem saber. O sebo mesmo tem que vender livro literário.

{O que é o verdadeiro sebista?

Abimael: É aquele que conhece sua área, conhece literatura, história, e tem um controle do seu acervo. Todos os grandes sebistas só comercializam livros. Antes de virar um grande bibliófilo, José Mindlin teve um sebo em sociedade com outra pessoa. Hoje em dia tem sebo que vende gaiola de passarinho, mel de abelha. Pode até ter um sebo só de revistas, mas uma coisa específica. Não dá pra misturar tudo.

{Você deixou a profissão de bancário para viver do sebo?

Abimael: Sim. Claro que dá pra você viver de uma maneira comum. Se fosse pra querer ser nobre de poder aquisitivo, aí não tem a mínima condição.

{Então, é uma paixão também…

Abimael: Sem dúvida, até por que se não fosse eu já teria procurado algum outro meio, mas eu gosto muito.

{Dá algumas dicas de livros que tem aqui no sebo.

Abimael: Como sugestão de dica de leitura o Sebo Vermelho tem um diferencial a nível de história e literatura do RN. Você encontra aqui livro de Coquinho, de História do RN, livro de Marlene Mariz, Sérgio Trindade, Cascudo, Veríssimo de Melo. Agora mesmo lancei um livro de Moacir Cirne, que é uma das edições mais importantes do Sebo Vermelho, o número 300 das nossas edições, que é um dicionário do Folclore Brasileiro sobre o dicionário de Cascudo, explicando os absurdos que a editora cometeu. A Global, que reeditou o livro, eliminou mais de quinhentos verbetes, uma coisa absurda. Este livro é um marco, não só das nossas edições, como da literatura do RN. Tem ainda o livro Salvados, de Manoel Onofre Junior, o melhor ensaio sobre a literatura do RN.

{Manda um recado para os nossos leitores.

Abimael: A coisa mais importante é ler. Você pode ler revista em quadrinhos, pode ler Julia, Sabrina, pode ler jornal de ontem, do mês passado, pode ler bula de remédio, pode ler qualquer coisa, poesia de décima quinta qualidade, ou Fernando Pessoa, o importante é ler. tem uma frase muito importante que diz: quem não lê, mal fala, mal ouve e mal vê. Isso é uma grande verdade.

{O Sebo Vermelho fica ali, na avenida Rio Branco, centro de Natal. Passa lá!

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Vito Giannotti, um comunicador porreta

No dia 3 de abril de 2009 Rogério Marques e Bruno Rebouças, do Coletivo Foque, bateu um papo do cacete com Vito Giannotti. Autor de mais de 20 livros, ele é um dos fundadores do Núcleo Piratininga de Comunicação, criado em 1992, juntamente com uma turma de comunicadores da pesada.

Italiano vivendo há 40 anos no Brasil Gianotti recebeu nossa reportagem no auditório do Sindsaude/RN em pleno horário de almoço. Durante o bate-papo chama a atenção para a importância de uma comunicação destinada aos trabalhadores. Uma comunicação voltada para o entendimento da classe. Do jornal impresso à internet. Sua maior crítica diz respeito ao vocabulário especializado, como o politiquês, o juridiquês e o economês, que toma conta do movimento social. “É um dever dos jornalistas traduzirem essas expressões conhecidas apenas por um determinado grupo. Não tem por que dizer Na conjuntura atual, se você pode dizer na situação atual .

FOQUE: Existe democracia na mídia?

VITO GIANNOTTI – É claro que não. Não há nenhuma democracia na mídia. Nenhuma. Na mídia impressa é inútil procurar democracia. O jornal O Globo é do Roberto Marinho, lá de onde ele estiver. A Folha de São Paulo é dos Frias. O Estadão é dos Mesquitas e a Veja é dos Civitas. Não tem conversa. Eles escrevem o que querem. Não tem sentido reivindicar democracia. De quem? Dos nossos inimigos. Da burguesia? Não tem democracia. A democracia com a mídia escrita é, nós trabalhadores, fazer a nossa comunicação, a nossa mídia, os nossos jornais. Ninguém nos impede de termos o nosso jornal.

“EM 1990 EXISTIAM NO BRASIL SEIS SINDICATOS COM JORNAIS DIÁRIOS. HOJE HÁ DOIS. QUEM É QUE IMPEDE AQUELES QUATRO QUE NÃO TEM MAIS DE TER UM JORNAL DIÁRIO? NÃO É FALTA DE DINHEIRO, ABSOLUTAMENTE. HÁ UM SINDICATO QUE TINHA JORNAL DIÁRIO, O SINDICATO DOS BANCÁRIOS (SP), POR EXEMPLO, COM UMA RECEITA FABULOSA, QUE DARIA PARA TER JORNAL DIÁRIO DUAS VEZES AO DIA. HOJE NÃO TEM MAIS. MAS NÃO FOI FALTA DE DINHEIRO. ENTÃO, SOBRE A MÍDIA ESCRITA, NÃO TEM SENTIDO REIVINDICAR DEMOCRACIA”.

Reivindicar democracia para a mídia escrita é, realmente, partir de uma ilusão que a mídia é neutra, que a mídia não tem lado, que a mídia está aí para noticiar, para informar, para divulgar determinados fatos, acontecimentos ou opiniões. Não é nada disso. A mídia é um instrumento de dominação, um poderosíssimo instrumento, essencial para impor e garantir sua hegemonia. Então, você não vai poder reivindicar do inimigo que ele te dê espaço. O inimigo só dá espaço nos seus jornais, se é para iludir o conjunto da classe que ele está sendo democrático, que ele está sendo amplo, está sendo neutro. Por isso que dá espaço, às vezes, a personalidades de esquerda para escrever um artigo na página três da Folha. Para mim é uma grande ilusão. A ilusão que, com aquele artigo, que você escreve hoje e daqui a um ano escreverá outro, você conseguiu colocar a sua ideia. Isso é uma imbecilidade. Nós vamos conseguir colocar nossas idéias quando tiver um jornal diário.

FOQUE: Por que a esquerda não tem um jornal diário?

VITO GIANNOTTI – No Brasil, já se teve jornal diário, em 1919. Dois jornais diários. Um em São Paulo, outro no Recife. Em São Paulo durou 40 dias, A Plebe, foi fechado pela polícia. Jornal de cinco mil exemplares diários. De maio a outubro de 1919, foi impresso, distribuído um jornal diário chamado A Hora Social. Gente, não tinha dinheiro nenhum, não tinha estrutura nenhuma, mas se fez jornal. Outro exemplo: o Partido Comunista em 1946. Época de redemocratização, logo depois da segunda guerra mundial. O partido comunista queria divulgar suas idéias, afirmar suas idéias. E chegou a ter oito jornais diários. Naquele tempo não tinha internet, que era fácil fazer um jornal aqui em Natal e reproduzir em Mato Grosso ou em Porto Alegre.

Naquele tempo era muito mais precário, muito mais difícil. No entanto, o Partido Comunista chegou a ter oito jornais diários. No Rio de Janeiro, tinha o jornal Tribuna Popular. Era um jornal com vinte mil exemplares diários. A mesma tiragem do jornal Correio da Manhã. Era o jornal mais lido do Brasil. Tinha a Folha de Alagoas, O Povo. Tinha no Recife, no Ceará, em Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e no Espírito Santo. Quer dizer, oito jornais diários. Algum engraçadinho vai dizer: – mas era com ouro de Moscou. Graças a Deus que era com o ouro de Moscou. Eu gostaria que houvesse ouro de Moscou, de Pequim, do Satanás, não interessa de quem, para fazer o nosso jornal. Estou falando de alguma coisa de esquerda, não estou falando de empresário.

Era dinheiro que vinha da solidariedade comunista internacional. Não interessa se era stalinista. Estou dizendo que o Partido Comunista se preocupou em usar o ouro de Moscou não para mordomia, não para corrupção, mas para fazer jornal. Isso é a nossa experiência. Veio a ditadura, fechou os jornais de esquerda, tal…

“FORAM FEITOS, DURANTE A DITADURA, 150 JORNAIS ALTERNATIVOS. POR QUÊ? POR QUE ERA INÚTIL VOCÊ PEDIR ESPAÇO NO ESTADÃO, NA FOLHA DE SÃO PAULO, NO GLOBO, TODOS OS JORNAIS A FAVOR DA DITADURA, QUE IMPLANTARAM A DITADURA, DEFENDERAM A DITADURA, APOIARAM A DITADURA ATÉ O FIM. VAI PEDIR DEMOCRACIA? NADA. O QUE FEZ A ESQUERDA? CRIOU 150 JORNAIS. SÓ PARA TER NOÇÃO, JORNAIS FEMINISTAS HAVIA TRÊS. MULHERIONÓS MULHERES E BRASIL MULHER. HOJE, QUAL É O JORNAL FEMINISTA QUE EXISTE? E NÓS VAMOS RECLAMAR DE QUEM? POR QUE NÃO TEMOS DINHEIRO? MENTIRA. TEM DINHEIRO DE SOBRA”.

FOQUE: O que falta para termos um jornal diário?

VITO GIANNOTTI – Falta perder a ilusão de classe que a burguesia vai nos garantir espaço, que a burguesia vai nos dar democracia. E falta aprender a lição mínima da história dos trabalhadores: – quer divulgar suas idéias? Faça o seu jornal. Falta aprender a lição mínima do Lênin, de 1901, quando ele escreveu um grande artigo, no jornal Isgra. Um artigo longo que se transformou no livretinho Por onde começar. Qual é a resposta do Lênin? – Com um jornal para toda a Rússia.

Esse é o primeiro passo. E nós, hoje, esquecemos essa lição. Aí ficamos reclamando e xingando a grande mídia, xingando os jornais da burguesia. Não tem que xingar, eles estão na deles. Nós que não estamos na nossa.

FOQUE:– Durante a oficina aqui você fala muito sobre a linguagem. Porque não basta construir uma estrutura de comunicação, um jornal diário, mas tem que construir uma comunicação que seja compreendida pelos trabalhadores…

VITO GIANNOTTI – Claro. Nós temos a tradição, a atitude generalizada de dizer: – o que conta é a política. Mas é claro que o que conta é a política. É claro que o principal é ter uma política e lhe levar a aplicá-la, de divulgá-la. Mas de que adianta ter uma política… Nós estamos no Brasil, onde se fala português. Nós definimos uma maravilhosa política. Um grupo de esquerda, um partido de esquerda, um bloco de esquerda, seja o que for. Definimos uma política corretíssima. Aí a publicamos num jornal escrito em chinês. Ué! Nós somos débil mentais. Podemos publicar um jornal escrito em árabe. Somos debilóides. Por quê? Porque no Brasil, uma em cada mil pessoas deve ler o árabe, o chinês.

O que nós temos que fazer?

Se nós definimos nossa política, temos que publicar ela em português. Mas não é qualquer português. Tem que ser um português que seja compreendido pelo público ao qual nos destinamos. Eu brinco… tem três principais na nossa comunicação, no jornal que a gente faz. O principal, principal, principal é o conteúdo. Ok! Tem que ser um conteúdo capaz de fazer a disputa de hegemonia na sociedade. Capaz de apresentar nossa visão de mundo. Capaz de apresentar a nossa proposta de sociedade. Isso é o principal. Principalíssimo. Tem outro principal, principalíssimo. Igualzinho. Se você não apresentar isso de uma forma bonita, agradável, convidativa, que estimule as pessoas a pegar aquele jornal, a ter na mão e ler, não adianta se ter a a melhor política do mundo se você se apresenta num jornal que ninguém tem coragem de ler.

Qual é o problema da cara, da beleza dos nossos jornais?

Estamos num país que tem a desgraça do terceiro canal de televisão do mundo: a TV Globo. Independente do conteúdo, da política, sabemos que é uma política inimiga do povo brasileiro, inimiga dos trabalhadores, o Jornal Nacional, a TV Globo, as novelas da Globo são muito bem feitas, são muito bonitas. E o nosso povo se acostuma com isso. Então, para um povo que está acostumado a ver o Fantástico, que é um lixo do ponto de vista político, não interessa, mas que é muito bonito. O povo que assistiu o fantástico, no dia seguinte recebe o nosso jornal de esquerda, feio, horrível, que não dá vontade nenhuma… O que vai fazer com esse jornal? Vai jogar fora. Então, de que adiantou o principal, principalíssimo, do nosso conteúdo se a forma só serve para fazer jogar fora essa coisa principal, principalíssima.

TEM UMA TERCEIRA COISA PRINCIPAL, PRINCIPALÍSSIMA. IGUALZINHO AO CONTEÚDO. IGUALZINHO À FORMA. É A LINGUAGEM.

Repito. Eu posso ter a melhor tese sobre da revolução brasileira, a melhor tese sobre a organização dos trabalhadores, sobre a tomada do poder, sobre a construção de uma nova sociedade. Ok! Eu posso até apresentar isso num jornal bonito, mas se for escrito em sueco ou em norueguês ou em finlandês, pode distribuir na Finlândia, na Noruega, na Suécia, mas não no Brasil.

A linguagem é mais importante que o conteúdo? Claro que não. Claro que é o conteúdo. A linguagem, para mim, é igual ao conteúdo. É uma heresia falar isso. Uma besteira falar isso. É uma bobagem dizer que a linguagem é tão importante quanto o conteúdo. Mas é uma bobagem muito séria. Por quê? Não adianta divulgar o conteúdo se é dito em chinês. Então, temos três tarefas enormes. Eu diria quatro.

A primeira, é ter um conteúdo capaz de disputar a hegemonia da sociedade. Conteúdo político a altura da nossa perspectiva política. Segunda, apresentar isso de uma maneira muito bonita. Terceira, escrever uma linguagem que o povo, que eu quero atingir, entenda. Quarta, eu diria que é a primeira de tudo, nós temos que ter nossa comunicação. Cadê nosso jornal diário? Cadê nosso jornal semanal? Cadê nosso jornal quinzenal? Cadê nosso jornal mensal? Vamos reclamar pra quem? Pro Papa, pro Bispo, pro satanás, pra Deus, pra quem? Quem nos proíbe de fazer um jornal semanal? Ninguém.

FOQUE: Mande um recado para as lideranças do movimento social, entidades, partidos…

VITO GIANNOTTI – Vamos criar um jornal diário. Não me venha os idiotas dizer que o jornal está sendo superado, que o jornal acabou, que a internet vai substituir. Pergunta isso para o bispo Macedo. Veja, a estatística do Brasil diz que 4,5% das pessoas lêem jornal no Brasil. Vamos dizer que 95% não lêem jornal. Mesmo assim, o bispo Macedo se atreve a fazer 2 milhões e setecentos mil jornais semanais, o jornal da Igreja Universal. Para que ele está fazendo se 98%, 99% do público da igreja dele nunca comprou jornal?

Por que, mesmo se lendo pouco no Brasil, temos que fazer jornal? Temos que divulgar nossas idéias. Diga-se de passagem, o jornal do bispo Macedo é muito interessante. A maioria dos jornais sindicais de esquerda que eu conheço teria que aprender muito com o jornal do bispo Macedo. Duas milhões e setecentos mil pessoas recebem esse jornal. Por que não recebe o nosso jornal de esquerda? Não teríamos 2 milhões e 700 mil, porque não temos o dinheiro do bispo Macedo, não vou entrar no mérito. Mas poderíamos fazer 200, 300 mil. Mas porque não fazemos? Quem nos proíbe? A democratização da mídia não tem nada haver. Nós temos toda democracia possível para poder fazer um jornal.

Tem sindicatos que publicam 60 mil jornais diários, os metalúrgicos de São Bernado (SP). Os bancários de Salvador (BA) publica dez mil jornais diários. Nem por isso eles descuidam da internet. Além da página atualizada constantemente, tem dois boletins eletrônicos diários.

//O nosso coletivo agradece a importante contribuição de Vito Giannotti para a comunicação livre e independente.

Diga lá Osório!

A NOSSA REPORTAGEM foi até o restaurante A Macrobiotica, na cidade Alta, para bater um papo com o jornalista, escritor e stalinista Osório Almeida de Oliveira. Figura inconfundível, sempre de boina verde e óculos arredondados.

Vítima de erro médico, ficou cego do olho direito, em maio de 2001. Hoje ele diz enxergar apenas 60% com o outro olho. Esse comunicador multimídia nasceu em São José de Campestre, no dia 12 de novembro de 1947. É do signo de escorpião. Osório mora com a mãe, dona Helena Germano de Almeida.

No ano de 1968 Osório viaja para o Rio e Janeiro, levado por Jesiel Figueiredo, para participar do 5º Festival Nacional de Teatro do Estudante. Foi e ficou lá na cidade maravilhosa até 1974. Tudo começou quando eu cheguei da estrada. Em 1968 peguei aquela agitação todinha, aquela movimentação estudantil, eu comia no calabouço [restaurante onde estudantes se concentravam em manifestações contra a Ditadura. No dia 28 de março, durante a repressão a uma passeata, a Polícia Militar invadiu o restaurante e o comandante da tropa da PM, aspirante Aloísio Raposo, atirou e matou o estudante Edson Luís com um tiro a queima roupa no peito]. A resistência à ditadura começou ali. Antes da morte daquele estudante não havia nenhuma animosidade a ponto de estudante querer pegar em arma. Mas ali foi a declaração de guerra. Então, a sociedade civil organizada juntou-se e disse: não tem mais acordo com esse regime.

Crise de identidade
Nesse período, trabalhou no mercado de capitais, uma injeção de dólares violenta que os Estados Unidos faziam para sustentar a ditadura militar. Só que eu entrei numa crise existencial, a famosa crise de identidade, por que eu via nos carros um decalque dizendo: Brasil, ame-o ou deixe-o. Ai eu procurei saber o que significa isso e soube que estava havendo guerrilha no Araguaia, que vários grupos de esquerda estavam lutando. Aí eu disse: rapaz, alguma coisa não vai bem no Brasil, vou cair fora. Foi difícil, por que largar tudo aquilo que eu tava gostando, eu morava no baixo Lebron, tinha vencido na vida financeiramente. Eu era aquele personagem do Ouro de Tolo, de Raul Seixas, aí fui pra estrada. Tinha jogado meus documentos fora e assumido o nome de HO, era o Ho Chi Minh da guerra do Vietnam.

Em 1974, depois de comprar um livro no Alecrim, no sebo de Jason Torres, eu vi um livro com o meu nome, comprei e fui estudar quem era Osório. Foi então que descobri que estava andando pra trás. Resolvi jogar o nome de HO fora e assumi o meu nome: Osório Almeida de Oliveira. A partir daí voltei a ser quem eu era.

Em 1976 Osório foi trabalhar como jornalista na Tribuna do Norte. Em 1978 trabalhou no jornal A República, chegando a ser editor do jornal O Contexto. Em 1980 foi para o jornal Folha da Manhã, do ex-senador Carlos Alberto, que depois viria a ganhar a concessão da TV Ponta Negra. Nesse momento Osório revela:

Se vocês não sabem, aquela concessão foi por causa da bomba do Rio Centro, por que nenhum deputado brasileiro aceitou defender os militares naquele processo. Aí sopraram: chama um cara do RN, chamado Carlos Alberto, que ele topa. Ele topou, mas em troca da concessão da televisão. Aquela televisão vale isso.

Deixou a função de editor do jornal O Contexto por que foi denunciado por um colega de não ter diploma de jornalista.

O político
Osório já foi candidato a deputado estadual, em 1982, pelo PMDB, de onde  saiu  para  ajudar  a fundar  o PSDB,  onde  passou   12   anos.Quando Geraldo Melo entrou no PSDB, aí eu achei que já não dava pra mim, saí. Fez uma opção mais radical e se filiou ao PCdoB, onde passou um ano.descobri que o PCdoB não era mais aquele comunismo que eu esperava. Antes de entrar no PSOL passou pelo PDT de Brizola.Hoje estou no PSTU, afirma.

O jornalista independente
Vi que a grande imprensa não fazia o jogo democrático que eu esperava que fosse a função do jornalismo. Partir para fazer um jornalismo alternativo e criei o jornal mensal Hangal, que durou 26 edições. Depois veio o Auto-edição, que durou 86 edições, e o De Esquerda, que segundo Osório durou mais outro tanto. Foram mais de vinte anos produzindo jornalismo alternativo.

Osório diz que largou o jornalismo por se decepcionar com a imprensa. Para ele a imprensa pode ser o quarto poder no primeiro mundo, nos Estados Unidos e na Europa, mas no terceiro mundo não. O que você acha de um quarto poder que come na mão dos três poderes?

O escritor
Como ser escritor sem um patrocinador no Brasil? Muito difícil. Então, comecei a publicar a minha obra em fascículos grampeados, chamados de opúsculos. Cheguei a lançar trinta opúsculos que eu transformei em livros. Juntando tudo deu dez livros. Hoje são 13 títulos publicados por conta própria.

O artista multimídia
Artista multimídia, eu me expressava pelo jornalismo, pela literatura e pelas artes plásticas. Passei dois anos expondo pelo Brasil como artista plástico. Se me expressava através das imagens com desenhos, então passei a ser fotógrafo amador. Tanto que o meu livro de fotografia não é profissional. É um trabalho amadorístico.

Ele denuncia que o amadorismo no Brasil é tido como uma coisa menor e defende a causa com a rebeldia de sempre. Eu não vejo problema nenhum em ser amador.

O que você gostaria de dizer que ainda não teve oportunidade
de expressar publicamente?
Como disse Karl Marx, as idéias dominantes de uma sociedade são as idéias da classe dominante, então a classe que está dominando impõe as suas idéias. Eu nunca tive a oportunidade de dizer isso, agora digo, a universidade brasileira precisa fazer uma autocrítica severa e assumir todas as culpas dos males que a sociedade contém.

Esquerda e desilusão ideológica
O Millôr Fernandes diz que jornalismo é oposição, o restante é secos e molhados, portanto, a razão do Diário de Natal, a rádio O Poti ter acabado, é por que praticavam um jornalismo chapa branca, de ficar só promovendo o ôba, ôba. A mesma coisa aconteceu com os partidos comunistas, que jogaram fora toda a sua ideologia.

Algumas pessoas dizem que o problema do Brasil é econômico. Se o Brasil fosse um Haiti, um Equador, aí teria problema econômico, mas o Brasil é podre de rico. O problema é que a política está nas mãos de pessoas criminosas.

O Brasil conseguiu a sede das olimpíadas para o Rio de janeiro por que prometeu 300 bilhões de reais, mas veja o que aconteceu no Rio de Janeiro ontem (07/10), lá na Baixada Fluminense várias estações foram depredadas por que o trem não funcionou. Então, copa do mundo, olimpíadas, nada disso vai resolver a situação do Brasil se o governo não investir em educação, saúde, pleno emprego. A insegurança é uma conseqüência disso.

O que será das próximas gerações?
Hoje o fim do mundo não vem através da bomba atômica, mas das condições ambientais adversas. O cientista inglês James Lovelock diz que a humanidade só tem mais duzentos anos, devido ao aquecimento global. Você vê em Manaus, a fumaça está prejudicando milhares de pessoas. As queimadas, todo o inverno, todo o verão brabo no mundo hoje, as florestas pegam fogo assim, como diz o matuto, automaticamente. Quem está fazendo isso é a humanidade. Hoje a filosofia anda lá atrás e a tecnologia na frente. Que progresso é esse que acaba com a humanidade?

Por causa de um erro médico você ficou cego de um olho,
quer falar sobre isso?
A categoria profissional que tem mais espírito de corpo no Brasil é o médico. Em 2001 eu perdi um olho por conta de um erro médico, não acidental, mas proposital. Fui torturado na sala de cirurgia do Hospital Universitário Onofre Lopes. Passei quatro dias e meio internado, com uma fila de médicos estudando meu olho. Apalpando, botando luz forte em cima. Quando não aguentava mais encarar a forte luz teve um que falou todo chateado: assim não dá, você não esta colaborando. Depois de muita luta, fui operado em vão, pois fiquei cego do olho direito. Hoje eu só vejo 70% pelo outro olho. Não consigo ler mais nada. Ando com dificuldade. Espero ser candidato a deputado estadual pelo PSTU em 2010, se ganhar meu primeiro projeto vai ser trazer a Associação das Vítimas de erro médico pra Natal, por que as vítimas de erro médico aqui estão completamente sem proteção. A impunidade aqui com relação a isso é total.

Diga lá algo que você acha que vale a pena.
Nem tudo está perdido. Já que o ensino faliu, está aí o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) que não me deixa mentir, o jornalismo ainda podia ser a salvação da lavoura. Já que o RN é o estado que tem mais analfabeto, que a imprensa assuma para si o dever de conscientizar o povo. Que esse jornal, O Coletivo, seja um farol que vai iluminar esse novo caminho.

Servidores(as) do IFRN discutem acordo de greve e encaminham luta da categoria

 

Servidores(as) do Instituto Federal de Educação (IFRN) se reuniram na última sexta-feira (29/6) no Campus Natal Central para mais uma assembleia geral.

Foto: Arquivo/Sinasefe

Na ocasião a diretoria do Sinasefe discutiu junto com a categoria a proposta de Acordo
de Greve para pagamento dos dias paralisados durante o movimento grevista em 2015.
A pauta incluiu também a compra do imóvel para a nova sede do sindicato, além dos encaminhamentos sobre a correção da proporcionalidade dos professores de 40h com dedicação exclusiva em relação a 20 horas.

De acordo com a direção da entidade sindical, “A falta da proporcionalidade de remuneração no que se refere ao Regime de trabalho de 40h e 40h com Dedicação Exclusiva tem provocado uma deterioração dos salários, que vem sendo acumulado
desde 2016”.

Diante dessa situação, o Sinasefe Natal está mobilizando professores ativos e aposentados. Além disso, vai encaminhar um abaixo-assinado ao sindicato nacional para que sejam tomadas as medidas judiciais e administrativas. “O objetivo do Sinasefe Natal é que as tabelas referentes à Lei 13.325/2016 sejam corrigidas e o salário dos servidores passe a ser pago da forma devida”.

Sinsenat cobra cumprimento da sentença judicial do plano geral

 

Quinta-feira (28/6) a direção do Sindicato dos(as) Servidores(as) Públicos Municipais de Natal (Sinsenat) se reuniu com o presidente da comissão de negociação, José Antônio de Souza.

Foto: Arquivo/Sinsenat

Durante a reunião ocorrida na sede da prefeitura, os representantes do sindicato entregaram um relatório com as reivindicações do(as)s servidores(as). Entre as pautas gerais e específicas foi destacado o cumprimento da decisão judicial da ação do Plano Geral proposta em 2003.

O próximo encontro será com o prefeito Álvaro Dias, com previsão de ocorrer logo após o dia 7 de julho. De acordo com o Sinsenat, que permanece em vigília permanente, “até lá, alguns pontos de pauta já devem ter andamento”.

Confira o relatório com as reivindicações dos(as) servidores(as):


Um papo com Floriano Bezerra na sede da Liga Artístico-Operária

PRISÕES, CASSAÇÕES, EXÍLIO, DESAPARECIMENTOS, INQUÉRITOS E MAIS INQUÉRITOS, esse foi o cenário de um passado recente que deixou profundas marcas na história do Brasil. Uma é poca de repressão contra homens e mulheres que lutavam por justiça social.

Floriano Bezerra é uma dessas figuras que foi vítima do golpe militar que tomou o país a partir de 1964. O Coletivo Foque foi até a memorável sede da Liga Artístico-Operária, no centro de Natal, onde bateu um papo de redação com Floriano, que é membro da Associação Norte-rio-grandense de Anistiados. Durante o nosso bate-papo, sua memória vai desvelando detalhes da sua resistência à repressão militar.

Sereno, Floriano fala dos seus ideais de liberdade e das torturas sofridas nos cárceres da repressão, quando foi preso pelo exercito, para quem era uma pedra no sapato do regime ditatorial.

Como foi que ocorreu a sua prisão?
Essa história é muito longa, mas eu fiz uma síntes desse processo que está no meu livro de memórias. Então, no dia 1º de abril, eu estava aqui em Natal, no exercício do meu mandato de deputado estadual e de da Federação dos Trabalhadores da Indústria do Estado do Rio Grande do Norte, quando pelas nove horas da manhã observei tropas nas ruas, aí eu notei que a coisa estava diferente. A gente já vivia de atalaia. Então, me dirigi ao Grande Ponto, peguei o primeiro taxi que estava na frente, era de um cidadão de codinome Tetéu. Aí Expliquei: quero alcançar a cidade de Macau, estamos com um golpe militar e eu tenho grande responsabilidade na minha terra para com os trabalhadores e a minha família. Aí o cara se inclinou para desviar do caminho, eu puxei a camisa dele e falei: rapaz, eu preciso alcançar minha família em Macau e os trabalhadores, você vai fazer uma coisa dessa? Depois eu soube que ele era polícia.

Apesar do contratempo no taxi, o então deputado Floriano logo chega a Macau e vai para a Federação dos Trabalhadores da Indústria, da qual é presidente.

Subi a tribuna e expliquei a situação para os trabalhadores, para que cada um ficasse atento, vigilante aos acontecimentos. À noite, peguei o jipe do meu pai, juntei alguns companheiros e fomos nos abrigar numa latada de casa velha. Lá ficamos nove dias. No dia seguinte à nossa chegada, um camponês passava na região e ouviu o rádio de pilha que levamos. Chegou assim e perguntou: [o que vocês estão fazendo aqui?] Expliquei a nossa missão ali, ele bateu no meu ombro e disse: [Seu Floriano, eu vou trazer alimentação para o senhor e seus companheiros os dias que passar aqui, e fique tranquilo que não vou dizer a ninguém, eu conheço a sua história, as suas lutas, e até militamos nas ligas camponesas]. Estava dada a senha.

No oitavo dia já tinha caído o primeiro exercito, que comandou o golpe com Mourão Filho. Em seguida, cairam o quarto e o segundo exercito. Restava o general Ladare no Rio Grande do Sul, que resistia ao golpe juntamente com Brizola. Até que Jango foi levado para o Uruguai, onde ficou exilado até morrer. Nós sabemos que Jango foi assassinado lá, disfarçadamente. Depois do oitavo dia no abrigo voltamos para casa, aí ficamos a mercê dos acontecimentos. No dia seguinte recebi uma carta, dizendo para eu me apresentar ao terceiro exercito, em Natal. Antes de viajar, fui chamado à Capitania dos Portos pelo capitão Bruno, que comandava o golpe na região, para assinar a transferência de seis tarefas de trabalho da minha categoria profissional para uma associação que eles engendraram de última hora para demolir a minha categoria profissional. Foi aí que eu levantei o punho cerrado e disse: capitão Bruno, não tem exercito, não tem marinha, não tem aeronáutica que pegue nessa munheca para me fazer essa transferência das tarefas de trabalho, disse, mesmo depois de ter passado na entrada entre metralhadoras.

15 de abril de 1964. Nesse dia, Floriano foi levado de avião direto para a base aérea. De lá, foi escoltado para o 16 RI como preso político.

 Seis soldados, todos de baionetas, me levaram para uma sala onde estava o capitão Lacerda com a sua ira nazista. Pegaram uma cadeira, quando eu me sentei já fui levando chute, mãozada, telefone. Depois, trouxeram uma máquina, encheram minha perna de fios, aí haja choque elétrico. Só saí vivo dessa sessão de tortura. Quando tiraram os fios das minhas pernas me levaram para outra sala e botaram numa banheira seca, outro tipo de tortura, um dos muitos tipos de pau de arara que eles usavam. Era um caixão quadrado, de madeira de lei forte. Me amarraram de pés e mãos nas costas, aí o folego e o ânimo do cidadão começa a desaparecer. Vinha quase morto de uma sessão de tortura, aí entrava noutra. Fizeram isso não sei quantas vezes.

Passados seis meses presos no quartel do 16 RI, em Natal, Floriano foi levado para Fernando de Noronha, juntamente com Djalma Maranhão e Aldo Tinoco. Lá, já encontraram Luiz Maranhão Filho preso. 

O capitão apresentou um oficio ao Major e disse: [esses são presos políticos da linha dura, se alguém tentar fugir, fuzila todos]. Aí o tempo fechou. Ficamos presos em Fernando de Noronha até o dia 28 de outubro de 1964. Quando a gente chegou de Fernando de Noronha, liberado por Habeas Corpus, no Recife, tinha um comando militar de 48 homens para nos levar para o quartel do quarto exercito. Botaram eu e Luiz Maranhão numa cela de 2 por 1, os nossos joelhos ficaram batendo um no outro, a gente quase sem poder se mover. Parece que pegaram todos os percevejos que tinha no quarto exercito e jogaram naquela cela. Foi o maior suplício que vocês possam imaginar, com aqueles insetos nocivos que se alimentavam de sangue.

Quais as dificuldades que você sentiu, e deve ter sentido muitas, você foi deputado, líder de uma grande categoria de trabalhadores, organizador das ligas camponesas, acontece o golpe, é preso, torturado, cassado, como é essa retomada na sua vida, com o Brasil ainda num regime ditatorial?

O golpe decorreu em 1964, depois de passar por esses episódios que já falei, fico lá na minha terra procurando calma, melhorar um pouco de saúde, para procurar emprego. Procurei muito, e nada. A convite de um amigo passei seis meses em Pendências. Nesse mesmo período, chegou um sujeito na região e comprou uma propriedade próxima. Era um espião americano.

Depois de seis meses em Pendências, voltei para Macau, comprei uma drogaria e trabalhamos até 1984. No tempo devido, fechei as portas da drogararia e a partir daí não trabalhei mais para seu ninguém. Então, acumulei Previdência Social que banca essa minha capacidade de não baixar a cabeça para seu ninguém. Eu falo para civil, falo para militar, para quem precisar, de frente. Quando é preciso levantar o verbo da verdade, é a verdade.

Mesmo depois de toda essa tortura física, psicológica, cassação política, fale da disposição e da importância de se manter a luta por uma sociedade justa e igualitária.
Em nenhum momento a minha ideologia passou. Ela continuou firme, franca na minha formação, eu sou um ideólogo intangível, irrecuperável, não tem golpe militar do mundo que faça eu mudar o rumo. E eu não acredito nesse sistema que está aí. Não foi por essa democracia que eu lutei. Lutei por uma democracia popular, do povo para o povo, de liberdade na ordem econômica e social, justiça social, igualdade. Lutei por aquela democracia que está acontecendo na China, não por que pensar em mudar, jamais.

Em dezembro de 2009 Floriano lançou o livro Minhas Tamataranas: Linhas Amarelas (Memórias), onde faz revelações da sua vida e da sua luta.

Mery Medeiros fala sobre a Associação Norteriograndense de Anistiados

LUTADOR DAS LIGAS CAMPONESAS, Mery Medeiros foi preso político durante a ditadura militar na década de 1960.

Com o objetivo de preservar a memória histórica de uma geração que foi massacrada pela repressão militar, ele e vários outros ex-presos políticos fundaram a Associação Norteriograndense de Anistiados.

“Esse é um dos motivos que leva vários companheiros a participarem das reuniões mensais. Isto acontece duas vezes ao mês. Além disso, os encontros servem para tratar de assuntos de interesse dos anistiados. Em nosso estado, estão registrados 150 nomes de ex-presos políticos do regime militar. São homens e mulheres que sofreram tortura ou tiveram perdas irreparáveis porque lutavam contra a desigualdade social”.
Mery aponta a luta de uma das vítimas da ditadura militar, Maurício Anísio de Araújo, que fez greve de fome na tentativa de garantir seus direitos.

O motivo é que o INSS não está cumprindo a Lei da Anistia, que inclui os anos de prisão como tempo de trabalho para a aposentadoria.

Porta-voz dos anistiados em nosso estado, Mery reclama das dificuldades encontradas para reivindicar direitos como as indenizações, por exemplo. Para ele, “o mais importante é que a juventude saiba que o golpe militar de 1964 dirigiu a nação contra a classe operária e estudantil”. Para tanto, realiza palestras em universidades e escolas.

Além do apoio do Conselho Estadual de Direitos Humanos, ele espera contar com a colaboração política da sociedade para não deixar morrer memórias de luta.

Mery Medeiros lembra o jovem Emmanuel Bezerra, vítima da repressão, cruelmente torturado até a morte. Sem contar muitas pessoas que até hoje sofrem as consequências deixadas pela ditadura.

“Prisões de familiares e seqüelas físicas ainda amargam profundamente a vida de muita gente. São pessoas que perderam a identidade. Outras perderam o encanto pela vida”, completa Mery.

Mas a luta da Associação Norteriograndense dos Anistiados não cessa nunca. Seja pela garantia de direitos que estão sendo desrespeitados, seja pela preservação da memória de uma história que não pode ser apagada.

Servidores estaduais realizam ato público na governadoria nesta quarta

Sindicatos que representam as diversas categorias de servidores públicos do estado do Rio Grande do Norte realizam ato público unificado nesta quarta-feira, 20 de junho.

O ato organizado pelo Fórum Estadual de Servidores acontecerá a partir das 9h, em frente à Governadoria, no Centro Administrativo de Natal. A manifestação tem como objetivo cobrar do governador Robinson Faria o pagamento do décimo terceiro de 2017, salários em dia e a correção de perdas salariais.

Além disso, existem as pautas específicas das categorias. Os professores, por exemplo, lutam pela correção das perdas salariais dos trabalhadores em educação e pelo cumprimento do plano de carreira.

De acordo com o Sindsaude, mesmo após uma greve de mais de 100 dias dos trabalhadores da saúde e professores da Universidade Estadual (UERN), o governo continua atrasando os salários dos servidores. O sindicato denuncia que os profissionais da saúde estão há oito anos sem reajuste salarial e parte da categoria ainda não recebeu o 13º de 2017.

Justiça determina que Prefeitura de Natal atualize matriz e aplique progressão de níveis

Arquivo Sinsenat

Na sexta-feira, 8 de junho, o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sinsenat) realizou uma assembleia geral para tratar sobre a ação coletiva do Plano Geral dos servidores municipais.

Na ocasião o advogado da entidade, Carlos Gondim, informou aos trabalhadores(as) que o juiz Luiz Alberto aprovou integralmente o pedido do Sinsenat para que a prefeitura atualize a matriz salarial e aplique a progressão aos níveis. Sendo até nível dois para os servidores da ativa e para os aposentados o nível 7. A justiça determinou um prazo de 30 dias para o cumprimento da ação.

Além disso, a entidade sindical solicitou aplicação de multa em caso de desrespeito à determinação judicial. Durante o prazo para cumprimento da ação judicial o sindicato realizará uma vigília incluindo audiência pública na Câmara Municipal.

“A entidade sindical junto com sua assessoria jurídica irá tomar todas a providências necessárias para que a decisão judicial seja cumprida na integra pela prefeitura de Natal”, declarou Ivan Rui, coordenador geral do Sinsenat.

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