por ROSY NASCIMENTO
As comunidades negras e indígenas brasileiras resistem há séculos aos violentos processos de colonização e escravização, práticas genocidas ainda bastante atuais que forjam corpos estigmatizados pela cor a vivências específicas, que nos amparam em contextos de não-lugares.
Os espaços que ocupamos hoje, a própria conquista da nossa humanidade, ainda é uma experiência bem recente e em processo, e foram alcançados a partir de intensas lutas coletivas, mesmo que a nossa liberdade tenha sido atribuída erroneamente a uma “benevolente” figura imperial.
Contrapondo as chacinas colonizadoras, historicamente estivemos engajadas no processo de ressignificar os modelos eurocentrados que nunca nos serviram, como é o caso, por exemplo, da nossa presença na Arte — mais um espaço hegemônico a ser derrubado.
A conquista deste espaço não significa, necessariamente, a construção efetiva de mecanismos de pertencimento a ele. Quer dizer, apenas, que conseguimos o mínimo acesso, burlando a estrutura racista a partir de estratégias particulares. Agora, o reconhecimento artístico, respeito e respaldo financeiro, de modo a garantir a dignidade profissional e os boletos pagos, ainda são grandes entraves para a nossa permanência.
É inegável a ruptura epistemológica que o acesso a esse espaço provoca, já que, de figura passiva desautorizada a criar — apesar de toda a riqueza construída por nossos ancestrais e roubada pelos brancos colonizadores — nos tornamos sujeitas capazes de transmitir as nossas subjetividades e referenciais de mundo. No entanto, aqui cabem as perguntas: quem é que autoriza? Por quê? Para quem? E o que acontece com quem não está autorizada?
Esses questionamentos podem apontar o frágil reconhecimento artístico de comunidades negras e indígenas no fomento da literatura, teatro, cinema, música, pintura dentre outras linguagens, no Brasil e no mundo. Caso não tenhamos habilidade de nos adequarmos aos códigos morais específicos dos donos de galeria, ou não nos moldarmos a um discurso oficial conivente, é bem capaz que tentem silenciar, uma vez mais, as nossas vozes, enterrar nossas complexidades, saquear o nosso avanço.
Por outro lado, a nossa presença já não pode passar desapercebida, observada com escárnio, ridicularizada entre um gole e outro de cerveja artesanal, porque a intenção nunca foi de aceitar migalhas. De várias maneiras, revolucionamos as estéticas, alteramos as paletas, adicionamos temperos, reinventamos linguagens, inserimos as nossas nuances de fala e gestos, recriamos imaginários, resgatamos identidades. Não somos mais manchas na paisagem e nem falhas da higienização.
Construímos, com o auxílio de diversos braços, espaços coletivos alinhados as nossas lutas, crenças e tempo. Como é o caso das iniciativas artísticas, no Rio Grande do Norte, da primeira nação de maracatu de Natal, a Nação Zambêracatu; o Movimento Cultural Nossos Valores, que promove a inclusão social de crianças e adolescentes, no bairro da Redinha, utilizando a arte, a cultura e a educação como elementos de transformação e criação de uma nova cidadania; o Festival Mungunzá, dedicado a divulgação e celebração da música negra potiguar; o coletivo de cinema negro Mulungu Audiovisual; o Cineoka!, voltado a exibição e debate do cinema indígena, que ocorre na área de preservação indígena Gamboa do Jaguaribe; o grupo de estudos em danças africanas Jahi Afrocentricity; o Coletivo Independente Dependente de Artistas (CIDA), também engajado no exercício da dança; o Projeto Literafro, voltado a promoção da literatura periférica/marginal do RN;os coletivos feministas Negras de Periferia e as As Carolinas; o Coletivo Viramundo Potiguar, que fomenta arte e a educação básica no Passo da PátriaQuilombo Flor de Milho, coletivo afrocentrado de artistas-pesquisadoras; O Quilombo Raça e Classe, dedicado a construção, organização e articulação do Movimento Negro no Brasil; o Ninho de Guabiru, coletivo artístico, cultural e político que articula as suas discussões em torno da interseccionalidade, envolvendo debates sobre raça e sexualidade a partir das vivências negras/indígenas e LGBTQ de seus componentesGuapo, coletivo de produção artística e cultural com referências latino-americanas na busca por um resgate identitário; a organização de mulheres negras feministas Ajagum Obínrìn; a Coletiva Jurema Preta, que realiza estudos e debates sobre as relações raciais no Brasil a partir de autores negros e negras;o Movimento Indígena do RN, dentre os inúmeros grupos de break dance, slam, crew, capoeira, danças populares, e demais junteiros dedicados a circularidade criativa e fruição artística racializada existentes no estado.
A arte potiguar é construída majoritariamente por pessoas negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+, ainda que tentem nos silenciar a branquitude detentora dos meios de produção, ainda que não sejamos citadas nem nos rodapés dos jornais quando lançamos ao mundo as nossas criações.
Durante esse período de isolamento social, convido vocês a conhecer e fortalecer essas iniciativas, já que muitas delas são autônomas, independentes e sem patrocínios, e mesmo assim, não são apoiadas por editais emergenciais.