por ROGÉRIO MARQUES

 

Duas linhas musicais retratam o poder de um vírus invisível que está matando milhares de pessoas em todo o mundo. A crítica atemporal da canção Miséria [um clássico do rock brasileiro na voz dos Titãs], além do inconformismo da época (1989), escancarou nesse momento as diferenças entre a Casa Grande e a Senzala.

Qualquer falta de semelhança não é mera coincidência

As vítimas do coronavírus podem não ter classe social, mas o tratamento da doença não é o mesmo para ricos e pobres. Os leitos dos hospitais onde famosos, ricos e poderosos são internados estão a quilômetros de distância do SUS (Sistema Único de Saúde) que se encontra à beira do colapso. Assim como o cenário da quarentena e do isolamento social não é igual para todos. Basta observar a disseminação da covid-19 nas periferias e pelo interior do Brasil.
Indígenas, quilombolas, pessoas em situação de rua, ciganos, trabalhadores informais habitam o mapa das populações mais vulneráveis. “Desde que esse país foi invadido os povos indígenas vêm enfrentando várias doenças, como sarampo, varíola, já passaram por tantos males e mais um agora que é a covid-19, que atinge toda sociedade brasileira, mas para os povos indígenas é muito mais grave porque somos desassistidos”, afirma o cacique Luiz, da aldeia Katu, localizada entre os municípios de Goianinha e Canguaretama.

 

Cacique Luiz Katu. Fotografia: Rogério Marques
“No Rio Grande do Norte não existe nenhum atendimento da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), então, a situação é muito mais grave. As 14 aldeias do Estado estão fazendo práticas internas para tentar se proteger da melhor forma com o isolamento social, daí a grande necessidade de existir um Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), que foi retirado no ano de 2019, deixando a população indígena no Estado totalmente vulnerável”, reclama o cacique.
Ele esclarece que a aldeia Katu está com dois casos confirmados de covid, mas acredita que tem mais porque esse número pode se multiplicar rapidamente dentro da aldeia, que não tem como fazer os testes. “Todas as aldeias estão preocupadas com essa falta do atendimento à saúde”. Diante do registro da primeira morte de um parente indígena no RN, o cacique Katu desabafa: “Nós temos mais uma vez aquele sentimento de abandono do poder público”.
Além de cobrar atendimento básico à saúde nas aldeias, a Articulação Nacional dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) cobra do governo medidas para impedir as invasões de garimpeiros e madeireiros aos territórios dos povos originários, que ameaçam a saúde e o direito à terra ancestral.
Vozes como as do povo indígena levantam o grito por direitos humanos fundamentais em meio à pandemia do coronavírus. “Chega de dor”, como dispara o canto ancestral do cantador Felipe Nunes:

eu vim de bem longe
eu vim
mas nunca me esqueci
do sangue que corre em mim