Arquivo pessoal
A pandemia ofereceu à sociedade mundial uma ‘lupa’ para enxergar melhor sua real situação. Os serviços essenciais frente a frente com os supérfluos do consumo desenfreado. Nesse contexto a lupa possibilitou à sociedade perceber o quanto a arte é essencial, para a saúde física, para a saúde mental, para demonstrar sentimentos, para aflorar sentimentos, para transmitir mensagens, para alimentar a alma! Diz a produtora cultural  Tatiane Fernandes,  do Fórum Potiguar de Cultura, logo no começo do seu recado sobre o atual cenário cultural.
Ela solta o verbo para desejar coragem às trabalhadoras e aos trabalhadores das artes. Persistir,  olhar astuto para traduzir esse momento em música, em filmes, em literatura. Eu desejo que nossa criatividade reinvente a forma de proporcionar o encontro do público com as artes cênicas, as artes de todos os palcos, reinvente o palco!
Num só fôlego, diante de um cenário intolerante que não admite opinião diversa, Tatiane emenda um recado de esperança para perseverarmos na construção de uma sociedade mais digna para tod@s. O bate-papo com o coletivo foque, via whatsapp, reflete a luta das trabalhadoras e dos trabalhadores da cultura em meio ao desmonte das políticas culturais, que se tornou uma obsessão para o governo Bolsonaro.Desejo que a arte nos aponte uma resposta e que nós estejamos atentos para escutar, compreender e seguir produzindo.

[Política cultural]

Logo após as declarações pra lá de vazias da Regina Duarte [secretária especial de cultura] ao canal CNN (07/5), Tatiane Fernandes escreveu um manifesto aonde aponta que a gestão de cultura no Brasil sofre com equívocos e falta de comprometimento dos gestores há anos, há séculos., em nível federal, estadual e municipal. O setor cultural passou por uma fase um pouco mais razoável com a proposição da criação do Sistema Nacional de Cultura, uma proposta que não foi efetivada, comenta trazendo à tona equívocos históricos que repetem o desapreço institucional com a cultura e seus artistas. Regina acredita que a gestão de cultura não precisa ouvir as diversas vozes. Assume que basta ouvir os que concordam com o que é proposto e as ponderações contrárias são consideradas ‘gritos de uma minoria barulhenta’. E com isso, afirma que as minorias não precisam ser ouvidas, lamenta se referindo ao total distanciamento da secretária especial de cultura com suas responsabilidades. Analisar essa entrevista poderia gerar um manual de equívocos.
Não é coisa de uma minoria barulhenta, tá lá na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948): Todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir das artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios. A cultura não é nenhuma coitada, apesar de ter perdido status de Ministério e estar confinada nesse momento crítico que o mundo vive, tem uma utilidade pública sustentada pela força de seus militantes, como a produtora cultural Tatiane Fernandes, fundadora da Mapa Realizações Culturais.

[Na esfera municipal]

A gente enfrenta uma total ausência de políticas públicas, diz Tatiane ao avaliar a gestão cultural no município de Natal. Na verdade, tem uma fragilidade grande no que seria a principal política de fomento à cultura que é o Fundo de Incentivo à Cultura, diz apontando a necessidade de ações em três eixos [fomento, produção e fruição]. Ela critica o distanciamento de diálogo entre a sociedade civil e a prefeitura de Natal. Nós temos a possibilidade de conversar, mas não de interferir ou de pautar diretrizes para a gestão pública, que segue fazendo aquilo que ela entende.
A produtora cultural afirma que há na condução da gestão municipal uma confusão entre investimento em cultura e investimento em turismo, observando que há grandes eventos com conteúdo cultural [Carnaval, São João, Natal em Natal), mas direcionados para fomentar o turismo. Dinheiro pago para artistas de fora que vem e gera recursos para o turismo, mas não fomenta a cultura local. Ela destaca ainda que esses grandes projetos da Fundação Cultural Capitania das Artes, que se valem para o fomento do turismo, se utilizam de recursos da Lei Djalma Maranhão.

[Na gestão estadual]

Em âmbito estadual nós tivemos a infelicidades em termos de outros estados nordestinos, enquanto o Brasil tinha um governo progressista, o Rio Grande do Norte tinha um governo conservador, e a gente não avançava nas construções de organizar o órgão gestor de cultura, então, você tem a fundação José Augusto que é um órgão dificílimo porque não tem quadro, não tem equipe, não tem como se trabalhar”, avalia Taiane, considerando que há outros mecanismos de financiamento à cultura que não avançaram. A Lei Câmara Cascudo cumpre uma função, tínhamos uma renúncia fiscal em torno de 6 milhões de reais, essa renúncia caiu para 3 milhões chegando ao final do ano passado a 3.700,000 milhões. Esse ano foi de 3.800.000 milhões a renúncia. Ela explica que segundo a gestão essa queda tinha uma intenção de que esses outros 3 milhões seriam destinados ao Fundo Estadual de Cultura. Foi preciso o ano passado que o Fórum Potiguar de Cultura tivesse uma ação muito intensa para que o fundo fosse ativado de alguma maneira. Foi quando a gente conseguiu através de alguns mandatos fazer pressão e aí saiu esse edital de 1 milhão de reais no ano passado, que não foi pago na sua totalidade e ainda tem metade em aberto. Então, na verdade, também em âmbito estadual sofremos do que a gente chama de ações de gestão e não ações de governo.
Tatiane trabalhou na Fundação José Augusto, tempo em que ajudou a desenvolver o PPA [Plano Plurianual], entre 2016 a 2019. Na época foi criado um programa que previa mil oficinas acontecendo durante o ano, em diversas linguagens artísticas e distribuídas em várias regiões do Estado. A política pública exige que entenda o cenário para tomar atitudes e decisões efetivas, então, temos que estabelecer os marcos legais no sentido de fazer as leis para que possam ser cumpridas, já que a prerrogativa do poder executivo é executar aquilo que está na lei.