por Leonardo Sinedino

 

Este é o cenário após a demolição do Hotel Reis Magos: Entulho de um patrimônio soterrado pelo poder público. Foto: Rogério Marques

Iniciamos o mês de fevereiro com a conclusão da demolição do Hotel Reis Magos, uma das maiores referências da Arquitetura Moderna do Nordeste, que ficava localizado na orla da Praia dos Artistas de Natal.

Nada de novo na capital potiguar, se formos analisar apenas do ponto de vista arquitetônico, com mais um patrimônio da cidade sendo demolido com o desdém de quem leva ao chão um castelo de areia. A história da cidade não vale nada para o poder público, tampouco para os tubarões da especulação imobiliária.

Entretanto, se formos analisar de forma mais ampla, a demolição do hotel causa apreensão naqueles que levantam suas vozes em prol do direito à cidade, e da ocupação democrática de seus espaços. Um observador mais atento irá perceber que, de forma pouco democrática, e de difícil acesso à sociedade civil, o Plano Diretor da cidade está sendo revisto – sem nunca ter sido executado de fato – num conluio do Poder Executivo da cidade, representado pelo prefeito-sem-voto Álvaro Dias (MDB), com o bando da especulação imobiliária, com o objetivo de liberar a construção de mais espigões na orla natalense, para assim, dar início à expulsão das comunidades adjacentes que, sendo pobres, insistem em morar em áreas privilegiadas da cidade. Um absurdo!

Nesta conjuntura, os movimentos sociais viam no Governo do Estado, chefiado por Fátima Bezerra (PT), uma tábua de salvação, que com uma canetada (com custos políticos, é verdade) poderia tombar o hotel para mantê-lo de pé, e assim restaura-lo e ressignificá-lo, para então, proteger as comunidades ao redor do hotel da ânsia predatória daqueles que querem prédios em toda a orla, e os pobres bem longe dali.

Muitas foram as iniciativas em defesa do hotel, em especial o movimento [R]existe, com propostas de reutilização daquele espaço para a sociedade. Numa tentativa derradeira, o movimento – composto majoritariamente por apoiadores do governo petista – se reuniu com a governadora na tentativa de convencê-la da importância de comprar essa briga, mas foi em vão. O governo lavou as mãos, e deu um banho de água fria no movimento, traindo seu eleitorado.

Infelizmente o governo Fátima Bezerra pouco aprendeu com as experiências no âmbito federal dos governos Lula e Dilma: se mostra incapaz de enfrentar os interesses predatórios do capital, delimitar a fronteira do inconcebível e mobilizar suas bases para superar a inércia e assim buscar ganhos reais para além das migalhas obtidas através da institucionalidade.

A experiência com o PT à frente do executivo no RN está sendo feita, e como esperado, com as contradições sendo expostas de forma visceral. Temos na militância os que se fazem de doidos, os que ainda defendem por receio da direita mais truculenta voltar ao poder, e tem aqueles que buscam construir uma alternativa à esquerda. Para esses, os desafios são muitos, mas o primeiro passo foi dado, agora é necessário mobilizar, dialogar com as bases e construir um projeto com e para aqueles e aquelas que precisam trabalhar para sobreviver.