por Renato Medeiros Jota

 

Na atualidade, quando alguém se digna a passar por uma banca ou verificar os lançamentos, o repertório de quadrinhos dispostas no mercado, em termos de opções, é reduzido a poucos títulos.
Aqui e acolá encontramos títulos verdadeiramente rebeldes que destoam dessa tendência como os de Tex, Júlia Kendell (quando aparece nas bancas), Dragonero, Hellboy, Martin Mistery e Dilan Dog, The walking dead, Conan o Bárbaro e Espada Selvagem de Conan são exemplos da exceção à regra de publicação nacional.

 

Para ser mais preciso, considerando só esses títulos, que é o mais usual de um leitor encontrar, outros temas são raros de aparecer, como por exemplo o gênero de quadrinho de tema cotidiano, biográfico e até mesmo de ficção, tendo como objetivo considerar assuntos familiares ao leitor no seu dia a dia. O lugar para quem deseja encontrar essas hqs normalmente é via lojas online como a Amazon ou especializadas, banca não! Mas o que desejo me concentrar em analisar aqui é as histórias que envolvam o cotidiano e suas possibilidades, através de três publicações que abordam o tema, uma internacional, uma nacional e Estadual.

Ilustração: Terry Moore

O primeiro quadrinho que desejo falar é a maravilhosa hq produto das editoras internacionais vindo dos Estados Unidos da América do Norte. Estamos falando de Estranhos no Paraiso, de Terry Moore, que fala das aventuras do trio de personagens: Katchoo, Francine e David, que se envolvem em um incrível triângulo amoroso e no qual cada um dos personagens via enfrentar problemas que os levará ao desenvolvimento emocional de cada um, ao mesmo tempo que tenta levar sua relação à frente. Essa série é publicada pela editora Devir estando atualmente no terceiro volume.

Ilustração: Roger Cruz

O outro quadrinho de publicação nacional, que aborda o tema cotidiano é Xampu, de Roger Cruz. Xampu mostra as aventuras dos personagens Raquel, Sombra, Max e Nicole, e suas histórias peculiares embaralhadas ao som de guitarras, baixo e baterias por uma geração movida a novas experiências e muito rock n´roll entre o final dos anos 80 e o início dos anos 90. Ambientada em um pequeno apartamento da zona norte de São Paulo, onde estremecia com a conversa, sexo e bebida, essa hq inicialmente foi publicada de forma independente por Roger Cruz, vindo depois a ganhar novos volumes, no caso além do primeiro mais dois, três ao total, sendo publicado agora pela editora Panini Comics.

Wanderline Freitas começou a desenhar há 26 anos. Hoje vive da arte, fazendo caricatura, ilustração, quadrinhos. Fotografia: Taian Marques/Coletivo Foque

O terceiro Quadrinho, este produzido em Natal/RN, chama-se, Amigos, amantes e amores, tendo como autor Wanderline Freitas. A temática das histórias, pois elas são variadas, gira em torno das aventuras amorosas dos personagens e as complicações decorrentes das decisões nem sempre acertadas tomadas dentro do relacionamento. O panorama geral em que cada história acontece nos motiva a fazer reflexões e reivindica a memória, um retorno nostálgico à época dos namoros, começo e término deles, e nas relações humanas em geral. Recomento muito adquirir essa e as demais edições.

O objetivo que me disponho é de tentar refletir sobre como as hqs que abordam o cotidiano e o aspecto familiar, mesmo que ficcional da vida, vem ganhando, aos poucos, seu espaço na leitura do público consumidor. Contar histórias do cotidiano em hq não é novidade. Muitas novelas foram contadas em hq no passado, mas as histórias geralmente tinham como ambiente o passado e, algumas vezes, envolta em um melodrama cafona para nossa época, pelo menos, que não atrairia as gerações de hoje. Talvez o ponto de viragem para colocar as hqs que falem mais do cotidiano e seus dramas humanos venham através do mestre Will Eisner. Foi ele que mostrou ao mercado e editores a viabilidade desse nicho e sua capacidade de vendagem, possibilitando a um público mais adulto e até mesmo alguns jovens possibilitar o gênero ganhar no Brasil espaço cada vez maior.

Dito isso, o que torna as novelas gráficas como estranhos no paraíso, Xampu e amigos, amantes e amores, ótimas hqs além do tema que as liga, o cotidiano? Simples, a empatia direta que temos pela narrativa ali exposta que nos remete a memória afetiva da adolescência e até mesmo do amadurecimento de muita gente. Obviamente que cada história ali segue um viés diferente uma das outras, mas os conflitos entre pessoas, os lugares onde a trama é desenvolvida nos evoca simpatia com a situação exposta. Cada uma delas mostra como um mapa o desenvolvimento psicológico de cada personagem que representa um arquétipo que pode muito bem ser um de nós.

A simples tarefa de uma história em quadrinhos, que enfrente o desafio de abordar um tema que evoque o mundo que nos rodeia com seus problemas diários do cotidiano, e mostrá-los de forma diferente, inovadora até, pode ser considerado de dificuldade bem acentuada. A possibilidade de errar o tom e ritmo da história é enorme! Mas se acertar, os benefícios são ainda maiores. Falar da vida, de nossa vida através de um substituto nos trás conforto e de certa forma segurança. O que reparei nesses quadrinhos é que todos os três autores estão falando ali um pouco de si mesmos. Nesse sentido, ler as três hqs acima descritas, me proporcionou momentos de alegria e tristeza. E posso lhes dizer que, certamente, podemos experimentar tais sentimentos ao ler uma hq, muito especificamente essas três foi um carrossel de emoções.

Particularmente, Hqs do cotidiano, costumes, biográficos são mais tendenciosas a evocar sentimentos guardados em nossos corações, por remexer no fundo de nossa psique com emoções que achávamos que estavam protegidas. Cada uma tem sua peculiaridade e forma de tocar a nota capaz de nos emocionar, e deveríamos dar mais chances a esses tipos de hqs. Elas são aquilo que necessitamos para também nos divertir e fazer rir ou chorar (dependendo do ânimo do momento), além de alternativa a uma mídia que tem muito o que contribuir com a dos quadrinhos. Recomendo a leitura das três hqs acima. As três podem ser encontradas nas lojas online da vida. Leiam e constatem que existe histórias muito boas também, além das páginas de super-heróis.

 

Renato Medeiros Jota – Mestre em filosofia pela UFRN, começou a escrever e desenhar desde cedo, fanzines como Universo Paralelo e Cães Sarnentos. Faz parte do coletivo Quadro9. Gosta de escrever histórias com temáticas de terror/horror, ficção científica e fantasia, abordando nelas o teor dos medos psicológicos e de temáticas filosóficas. Ilustrador e roteiristas das HQs Lovenomicon, Tempestade Mental, Maldito Sertão, Cidade Asfixiada, participou da coletânea do fanzine Express do Quadrinhos Estudio e da hq de Milena Azevedo Visualizando Citações.