Por Tatiana Lionço/Justificando

O debate sobre gênero tem servido, na contemporaneidade, para mover polarizações morais antagônicas ao processo democrático.

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A democracia implica o dissenso, requerendo argumentações plurais sobre fenômenos sociais complexos. Ao invés de contribuir para as polarizações sensacionalistas sobre gênero, deveríamos considerar os dissensos e as argumentações plurais diante da complexidade dos processos de violência que travessam as experiências sexuais e das desigualdades de gênero no país. Tenho me preocupado bastante com a necessária recuperação do debate público, pois este tem sido minado por polêmicas que paralisam as possibilidades de pensamento diante de ideias um tanto extravagantes e controversas, tais como crucifixos nas vaginas, “kit-gay” para transformar crianças em homossexuais e outras cenas sexuais, tais como “golden-shower”, que não correspondem aos urgentes problemas que deveríamos enfrentar em relação às violências e desigualdades de gênero no país. Podemos afirmar que o suposto debate público sobre gênero, portanto, estaria movido por fortes emoções e pensamentos imperfeitos. Mais vale a euforia da ira do que argumentos plausíveis e assim caminhamos para o encobrimento de questões importantes a serem consideradas.

Vale perguntar qual haveria de ser o novo regime de verdade no qual nos encontramos. É tempo de deslegitimação das institucionalidades que vinham, historicamente, validando os modos plausíveis da argumentação razoável. Não é mais novidade que o anti-intelectualismo se impôs como meio de subversão do regime de verdade acadêmico-científico no qual constituímos em grande parte os parâmetros  metodológicos e epistemológicos para a validação do conhecimento a ser considerado pelo Estado. Argumenta-se em inúmeros artigos de opinião compartilhados na Internet que estaríamos na era da pós-verdade.

Para Lee McIntyre[1] a pós-verdade seria parte de uma tendência crescente de busca de adequação da realidade às próprias opiniões e convicções, manipulando e selecionando fatos de acordo com os próprios interesses. A pós-verdade, nesta perspectiva, seria uma forma de supremacia ideológica, um modo de induzir pessoas a crenças a despeito de sua razoabilidade ou fundamentação em evidências seguras ou, ao menos, sem viés deliberado.

Podemos pensar que no regime da pós-verdade não há espaço para dúvidas. As certezas são impositivas e pretendem silenciar os dissensos. Neste novo regime de verdade, a polarização é o dispositivo do debate público: não há dissenso, senão mentiras a serem combatidas. Entramos no terreno da inimizade como condição social.

Não é à toa que o discurso de ódio prolifera nas redes sociais, deteriorando também as possibilidades presenciais de interação, condenadas ao risco do vexame no exame da identidade/diferença como prova de pertinência/impertinência para a convivência. Não apenas não pode haver dissenso, como a diferença é marca da distância a ser mantida para a garantia da fidedignidade da própria verdade/identidade. Difícil escapar da rotulação: se não a cor, o sexo, a classe social, talvez o espectro político (sempre dual: esquerda/direita), ou cada vez mais a adesão religiosa. Não parece ser na diversidade que as alianças tem se constituído, mas sim na afirmação da identidade concebida como contraponto a uma diferença legitimamente destrutível.

Durante a Conferência de Ação Política Conservadora, realizada em 12 de outubro de 2019 em São Paulo, Eduardo Bolsonaro argumentou que “quando você começa uma discussão com pessoas deste tipo [de esquerda] você não pode fazer um debate sério. Você não tem como contradizer então tem que ser sarcástico (…) Faz um meme”[2]

Para Renê Morais da Costa Braga, o caráter comunicacional da Internet, que prima por estímulos visuais rápidos, incidiria sobre “o pensamento ‘raciocinante’ (raciocínios dedutivos e a classificação de dados) [que] vai sendo substituído por um pensamento associativo. Florescem as narrativas que se utilizam de estereótipos sociais”[3]. Talvez não tivéssemos motivos para tanta preocupação se a estratégia se reduzisse à lógica bolsonarista. Infelizmente, a redução do dissenso à objetificação de oponentes em imagens cristalizadas (seja em memes, seja em estereótipos que silenciam argumentações a serem consideradas em um exercício dialógico de interpelação recíproca) também tem sido a tônica da chamada “resistência”.

Para Wainberg[4], a pós-verdade consiste na condição em que fatos são menos importantes na formação da opinião do que o apelo às emoções. As fake news estariam sendo produzidas para gerar sentimentos de raiva contra oponentes com base na distorção de informações ao seu respeito, tendendo à polarização da opinião mas também à construção retórica de inimigos a serem combatidos. Raiva é uma importante emoção política, pois pode levar à tomada de ação intempestiva por parte de um grupo. As mensagens emotivas de teor negativo são as que mais se propagam e, portanto, tendem a condicionar mobilização para a ação coletiva. “Dominar os impulsos coletivos implica, portanto, a capacidade de um ator influenciar a imaginação e a percepção das pessoas, mobilizando e alterando o estado de espírito da sociedade ou de parte dela, algo que pode ser monitorado por meio de métricas variadas. Isso tem sido chamado de hacking cognitivo”[5].

A viralização das fake news não se baseia na qualidade da informação, e “uma possível explicação se encontra no fato de que os autores das notícias falsas se utilizam de um ambiente politicamente polarizado em que há temas sabidamente controversos e se fornecem, para ambos os lados do espectro, notícias que confirmem as críticas e pré-conceitos de um grupo para o outro”[6]. As fake news, portanto, tem uma relação direta com a polarização da opinião pública, por meio do ataque à reputação de oponentes visando o silenciamento de pensamentos contrários por meio de sua distorção sensacionalista e precarizando, assim o debate público e democrático que se move por meio do dissenso.

Gostaria de trazer para a reflexão compartilhada dois episódios que podem nos implicar e, neste sentido, provocar a auto-crítica em relação à nossa vulnerabilidade em ceder à sedução da pós-verdade ou à renúncia da argumentação razoável. Convido vocês a refletir sobre a polêmica do “kit-gay” nas eleições de 2018, bem como sobre a declaração da Ministra Damares Alves de “não havia visto nenhuma menina enfiar o crucifixo na vagina”, declaração realizada no mesmo evento conservador em que Eduardo Bolsonaro instiga a criação de memes como estratégia diante do dissenso ou da oposição.

Durante a campanha eleitoral de 2018, o Tribunal Superior Eleitoral determinou que Jair Bolsonaro retirasse de circulação vídeos em que alegava que o livro Aparelho Sexual e cia integrava o kit de materiais educativos do Escola sem Homofobia. Alardeando um suposto “Kit-Gay”, Jair Bolsonaro vem construindo fake news a respeito do debate sobre gênero e sexualidade nas escolas desde 2011, e nota-se que grande parte de sua notoriedade política tenha decorrido das polêmicas geradas a partir de tais distorções. Tendo sido Fernando Haddad Ministro da Educação durante a gestão Dilma Roussef, na ocasião em que foram produzidos os materiais educativos do Escola sem Homofobia, Jair Bolsonaro atacou moralmente seu adversário político na campanha pela presidência da república em 2018, alegando que Haddad seria o candidato do “Kit-Gay”.

Surpreendentemente, a campanha de Fernando Haddad se empenhou em afirmar não apenas que seria fake news que o livro Aparelho sexual e cia integraria o kit de referência produzido no projeto Escola sem Homofobia como se dedicou a afirmar que o “Kit-gay” seria fake news, assim como o “Seminário LGBT infantil”, também alardeado por Jair Bolsonaro. No dia 30 de outubro de 2018, Haddad afirma, em um post no Twitter, que “pela enésima vez Bolsonaro é desmentido: é #FAKE que Haddad criou o Kit-Gay e que a Câmara realizou o Seminário LGBT infantil”[7].

Ora, no dia 06 de fevereiro de 2019, Eduardo Bolsonaro tuitou, supostamente como prova da existência do “Kit-Gay”, o vídeo que seu pai produziu em 2012 denominado Deus Salve as Crianças. O video produzido editou pronunciamentos de participantes do IX Seminário LGBT da Câmara dos Deputados, incluindo eu mesma que, naquele ano, debateu o Escola sem Homofobia. Nesta ocasião, eu me vi, pessoalmente, servindo como a base empírica para provar que seria fake news que o “Kit-Gay” e o “Seminário LGBT infantil” seriam fake news. Vejam bem: estou aqui dizendo que eu me vi, pessoalmente, servindo como elemento de prova de que a suposta fake news seria fake news, uma instrumentalização abusiva e objetificação de minha agência subjetiva, reduzida inicialmente à prova do “Kit-Gay”, para depois ser reduzida à prova de que seria fake news a alegação de que nunca houve “Kit-Gay” ou “Seminário LGBT infantil”. Percebam que, sendo eu sujeito deste processo de objetificação na produção de fake news, disponho de posição privilegiada para considerar que houve uma mudança na lógica de minha sujeição ao uso instrumental de informações parciais na polarização política entre “esquerda” e “direita”, e que a decorrência disso é o esvaziamento absoluto do debate sobre gênero e sexualidade nas escolas.

Estamos falando em guerra de memes e tuítes, e não de debate público sobre os objetivos do Escola sem Homofobia, seus pontos positivos e possíveis críticas. Perdemos, portanto, a oportunidade de debater a importância da elaboração de materiais educativos para o enfrentamento da LGBTfobia nas escolas. Perdemos a oportunidade de reivindicar que o processo, que havia se iniciado, para a  implementação de políticas públicas de educação para o reconhecimento da diversidade sexual, pudesse ser continuado. Perdemos a oportunidade de reafirmar que é pertinente o debate legislativo sobre infância, adolescência, sexualidade, educação.

Da mesma forma, a ministra Damares Alves afirmou, na Conferência de Ação Política Conservadora, que desde que havia chegado ao evento não havia visto nenhuma “menina enfiar o crucifixo na vagina”[8]. Uma avalanche de memes e posts em redes sociais mencionaram a fala de Damares como extravagância bizarra. A mesma denegação em relação ao Kit Escola sem Homofobia e ao IX Seminário LGBT da Câmara pode aqui ser observada. Não é possível que já tenhamos nos esquecido de que, na Marcha das Vadias do Rio de Janeiro, contemporânea à visita do Papa Francisco ao Brasil em, ocorreu uma polêmica performance em que um crucifixo fora introduzido no ânus e uma cabeça de santa em uma vagina, em praça pública. Talvez por ser uma pessoa que está retratada pessoalmente em um mural ao lado exatamente da foto desta performance não pude deixar de esquecer o acontecimento. Estas imagens se encontram, sintomaticamente, no “Mural da Verdade” afixado à porta do gabinete do Vereador Carlos Bolsonaro na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Como sou parte interessada e pessoa diretamente implicada, verifiquei presencialmente a veracidade dos fatos em julho de 2019. Sobre a fala de Damares e crucifixos introduzidos em orifícios, não vi menções a tais memórias que possivelmente compartilhamos, mas sim à estupefação coletiva sobre de onde, afinal de contas, teria a ministra retirado menção a tais cenas sexuais.

Podemos até nos perguntar sobre o deslocamento operado por Damares entre o significante ânus para o vagina: a ministra apelou para uma referência cultural amplamente compartilhada e muitas pessoas acionaram pertinentemente o filme O Exorcista em seus comentários nas redes sociais. Está aí uma análise possível: a ministra está, de fato, promovendo a demonização de seus oponentes políticos, uma das características apresentadas por Chip Berlet[9] como própria das teorias conspiracionistas. Podemos entender as fake news como uma forma de disseminar informações distorcidas que estigmatizam sujeitos e os objetifica como inimigos a serem combatidos, sobretudo por meio da demonização e/ou destruição da reputação, associando sujeitos e grupos ao risco social e civilizatório, legitimando, assim, o uso da violência contra estes.

Chama à atenção o caráter paranóico dos extremismos fundamentalistas, pois selecionam os elementos da realidade que servem para criar teorias tendenciosas sobre a realidade, objetificando oponentes e gerando alarmismo social. Há uma perda da realidade na paranóia, a realidade sendo reduzida às distorções interpretativas a serviço do delírio que usurpa o sentido de acontecimentos e objetifica sujeitos. Neste sentido, as fake news podem se apoiar em eventos reais, em fatos, insistirão sempre nas evidências, sem, contudo, assumir que sua interpretação distorce o sentido de tais acontecimentos. Não raro alegam intenções subliminares quando são desmentidos por sujeitos que denunciam a não correspondência entre fatos reportados e acontecimentos vivenciados.  Em uma perspectiva psicanalítica, a paranóia se produz por meio de um mecanismo de defesa do Eu que seria a projeção, que anularia as alteridades e reduziria a realidade externa aos próprios conteúdos psíquicos do sujeito, que invadiria a realidade externa com seus próprios conflitos, atacando ou temendo no exterior o que seria intolerável em si mesmo.

No entanto, não podemos deixar de notar que temos, no mínimo, adotado mecanismo de defesa denegatório, também selecionando memória confortável para não enfrentarmos os impasses morais e complexidades de nossas próprias agendas políticas e de pesquisa relacionadas a gênero e sexualidade. Qual a finalidade de fingirmos que não sabemos que: já debatemos sexualidade infantil no Congresso Nacional; que ocorreu no Rio de Janeiro performance polêmica (e que tensiona o ordenamento legal) em que um crucifixo foi introduzido no ânus; que estamos, há décadas, propondo a educação sexual nas escolas; que podemos sim debater publicamente e pesquisar nas universidades temas moralmente controversos como: sadomasoquismo, pornografia, prostituição. Estas últimas questões, inclusive, tem servido para desmoralizar a produção acadêmica de conhecimento. Bolsonaristas adoram polemizar os títulos de dissertações e teses sobre tais temas, alarmando uma suposta ruína moral nas universidades.

Enquanto nos rendermos ao sensacionalismo dos memes e à parcialidade na seleção de informações, contribuímos para silenciar debates públicos sobre gênero, violências e sexualidades. Precisamos organizar nossos afetos de modo a retomar o desafio do debate público, sobretudo propondo foco nos fenômenos sociais que justificam a tomada de decisão pública e institucional: os feminicídios, as violências sexuais, a LGBTfobia, a vulnerabilidade de crianças e adolescentes às violências sexuais mas também morais, a morte materna por aborto inseguro. Ainda, precisamos reconhecer a hiprocrisia das respostas institucionais aos desmontes das universidades públicas: há higienismo moral implicado no foco excessivo no mérito universitário passível de “prova” por meio de rankings e pela internacionalização, que supostamente provariam o “status” de nossas universidades públicas. Esta ênfase meritocrática e produtivista tem também servido para silenciar possíveis debates sobre os ataques morais sofridos por pesquisadora/es no campo dos estudos de gênero. Podemos continuar pensando sobre gênero?

Estamos em tempos de guerra moral, disputando quem melhor destruiria legitimamente a reputação de opositores políticos. Seria este um bom caminho democrático? Estaríamos ampliando, deste modo, a compreensão sobre os riscos e vulnerabilidades nas desigualdades de gênero e nas violências relacionadas às práticas das sexualidades? Recusemos, portanto, o mecanismo defensivo da denegação e nos dediquemos à construção de argumentos destinados a mover mais reflexão. O esvaziamento do debate público sobre gênero é efeito da conivência com a destruição das reputações como ato legítimo na era das polarizações sensacionalistas. A caricaturização das alteridades precariza o diálogo e legitima a recusa do dissenso, mas apenas nos levará ao conforto ilusório do pertencimento às bolhas de autoafirmação.