POR LUCIANO CAPISTRANO // PROFESSOR E HISTORIADOR

 

“Enxergo a vida através
da memória”.
(Socorro Paiva Capistrano)

Tem dias que me pego com o passado, tempos de infância/adolescência inquietam meus pensamentos. Neste domingo, amanheceu chuvoso, 30 de junho, último dia do mês das quadrilhas, milhos, fogueiras, forró… bem, domingo, chuva, mês junino, não sei se essa mistura de alguma forma atiçou um baú de recordações. E neste caldeirão de sensações e simbolismos, abro a página do Facebook, e, encontro uma frase de Socorro Paiva Capistrano, pessoa querida, já encantada.

“Enxergo a vida através da memória” , leio a frase de Socorro Paiva, mãe dos meus queridos primos, Pablo Capistrano e Rosa Morena, em uma postagem do Facebook com uma foto das minhas idas ao arquivo, em uma rotina do oficio de historiador. A foto do meu fazer como historiador e a frase me fizeram olhar a estante, ver os livros. Neste instante, me deparo com Sem Paisagem: memórias da prisão, livro de Moacyr de Góes, ex- secretário de educação, um dos idealizadores da campanha de Pé no Chão Também Se Aprende A Ler, ação de educação desenvolvida durante a administração do prefeito de Natal, Djalma Maranhão.

Folheio o livro e:

Agora, sentado na janela do comando do QG, eu esperava. Da janela via a Catedral, a Praça André de Albuquerque. Mulheres, carregando suas tristezas, chegavam para as missas. Pensei em minha mãe. Lamentei não ver a Igreja de Santo Antônio porque sempre gostei do galo que guarda o campanário. Sabia que se atravessasse a Praça, da calçada da Igreja do Rosário, veria o Rio Potengi. Lembrei de minha mulher, pois, ali, muitas vezes namoramos. Era um dos nossos recantos preferidos pela beleza do rio e pela discrição do lugar que permitia abraços e beijos. Oito anos de namoro. (GOÉS, Moacyr de. Sem paisagem: memórias da prisão. Natal: Sebo Vermelho, 2004, p.43-44)

A dor da saudade descrita pelo professor Moacyr de Goés, preso, impedido de ver o pôr do sol e o rio Potengi ao lado de sua amada. Na narrativa de suas memórias, paisagens de uma cidade, memórias de um tempo de restrição às liberdades democráticas. Os lugares narrados, cheios de sentimentos, por Moacyr, são “testemunhas” de um período em que o obscurantismo fez-se “Senhor do Poder” nas terras potiguares. Página triste de nossa história. Hoje, ao caminhar pela Praça André de Albuquerque, não encontramos mais os vestígios da administração do prefeito Djalma Maranhão. Não foi apenas as memórias afetivas de Moacyr de Goés que foram confinadas a uma cela fria do Quartel do Exército. As gerações pós abril de 1964 foram ceifadas da Praça de Culturas, foram ceifadas da Galeria de Artes da Praça.

Eis o que esta Galeria de Arte vale para nós, como representação do passado. Bem queria que os novos alunos de hoje também passassem por ela sonhando e cantando. Não se extinguiu, na verdade, o instinto norte-rio-grandense de poesia. E mais uma vez, para confirmar a predestinação histórica, os poetas confluem para esta praça, possuindo agora a sua Academia democrática, tendo agora a oportunidade de expor aos olhos do povo sua inspiração viva. (BARBOSA, Edgar. Imagens do tempo. Natal: Edição Imprensa Universitária, 1966. p. 98)

As novas gerações de estudantes não conheceram a Galeria de Arte, uma galeria aberta, uma espécie de “corredor das artes” construída na parte da Praça André de Albuquerque, próxima ao hoje Tribuna de Justiça. Um lugar escolhido para ser “passagem”, aberto para todas as classes sociais. Comerciários, sapateiros, moradores do Passo da Pátria, transeuntes da Cidade Alta, atravessavam por entre cultura. Hoje um vazio, nada a lembrar a Galeria de Arte.

Retorno a Socorro Paiva, “Enxergo a vida através da memória”, e, faço este exercício de “enxergar“ a cidade através destes memorialistas, cronistas que nos fazem ver uma cidade silenciada por forças obscuras alçadas ao Planalto Central, numa quartelada com pés fincados em setores antidemocráticos, conservadores, responsáveis por interromper uma das administrações das mais exitosas que Natal já viu. Djalma Maranhão não desceu as escadarias do Palácio Felipe Camarão por ter cometidos atos ilícitos de corrupção.

Desceu de cabeça erguida. Preso, exilado no Uruguai, morreu de saudades de sua cidade e de sua gente, mas, morreu com a consciência tranquila de quem fez o melhor por sua cidade.

Já chegando ao fim dessas minhas inquietações, olho novamente a estante e meus olhos marejam, lagrimas escorrem pelo rosto. Mãos tremulas, abro o livro, Assim foi Auschwitz: testemunhos (1945-1986):

Fui deportado da Itália, em minha qualidade de judeu, em 20 de fevereiro de 1944 e cheguei à estação de Auschwitz na noite de 26 de fevereiro de 1944 […]  Assim que desci do trem, na plataforma da estação deu-se a primeira seleção; tive a sorte de ser julgado suficientemente jovem e ainda apto para o trabalho, enquanto minha mulher (que estava comigo e da qual fui brusca e violentamente separado) foi enviada nessa mesma noite para a câmara de gás, como soube depois da libertação por algumas de suas companheiras que sobreviveram […] (LEVI, Primo. Assim foi Auschwitz. São Paulo: Companhia Das Letras, 2015, p. 68-69).

Finalizo esse meu percurso por memórias afetivas, ditas em momentos de dores individuais em cenários de um Brasil pós 1964, e, em uma época mais anterior, a década de 1940, tempo da Segunda Guerra Mundial. Nos fragmentos extraídos das memórias de Moacyr de Góes e de Primo Levi, a dor comum de todos nós humanos, a dor das injustiças sofridas por perseguições nazifascistas. Dores de saudades.

Parafraseando Socorro Paiva Capistrano: Uma história de dores: enxergo através das memórias. Façamos das nossas inquietações, sempre um diálogo democrático.