Abril tempos de repensar
Falar é necessário
Democracia liberdades em risco
Tempos de uma legalidade interrompida
Dias sombrios
Golpe, não revolução!
21 anos de obscurantismo
Torturas
Prisões
Desaparecidos políticos!

*Título do livro de Mailde Pinto Galvão

 

POR LUCIANO CAPISTRANO // PROFESSOR E HISTORIADOR

 

Conheci Mailde Pinto Galvão através do seu livro, 1964: aconteceu em abril, uma publicação da Livraria Clima, do saudoso livreiro Carlos Lima. Faço aqui um pequeno parêntese, para dizer da importância do livreiro da rua Dr. Barata, o homem da Livraria Clima para as letras potiguares. Grande Carlos Lima.

Bom retornemos ao texto. Mailde Galvão, em seu 1964: aconteceu em abril, encontrei um relato pujante sobre os dias que se seguiram a tomada do poder pelos golpistas, militares e civis associados. Desferiram um golpe a frágil democracia brasileira. Em seu relato, Matilde escancara as ações ocorridas em solo potiguar, tecendo um cenário com diversos personagens e suas atitudes perante a defesa ou o ataque ao regime democrático.

Na dedicatória, um silencioso desabafo de quem sofreu as agruras dos perseguidos injustamente por um Estado autoritário: ”É igualmente, a oportunidade para lembrar e agradecer os gestos de solidariedade que todos nós, os “subversivos”, recebemos de pessoas que participaram da nossa história.” (PINTO, Mailde Galvão. 1964: Aconteceu em abril. Natal: Clima, 1964).

Mailde Pinto, aproveito a oportunidade para lhe agradecer, in memoriam, pela coragem e altivez com que enfrentou as tribulações e por ter publicado tão importante contribuição para nossa história. Gratidão.

Não é fácil para quem vivenciou o trauma da prisão, os anos das liberdades proibidas, falar ou escrever sobre este período de nossa história. Como disse Mailde Pinto (1994, p.1):

“Este relato de fatos ocorridos em 1964 tem a pretensão de contribuir para o conhecimento da história do golpe militar no Rio Grande do Norte, focalizando, preferencialmente, os acontecimentos que atingiram a Prefeitura Municipal de Natal, nos quais fui envolvida, com alguns companheiros de trabalho do setor de educação e cultura do município.
Por dificuldades emocionais, muitas vezes tive que interromper esta reconstituição; mas eu vivi, sofri e sobrevivi à perseguição da ditadura. Sinto-me, pois, moralmente comprometida a tirar da escuridão as minhas lembranças reprimidas.”

Mailde Pinto Galvão participou de um dos grandes projetos de educação já ocorrido na cidade de Natal, na campanha de Pé No Chão Também Se Aprende A Ler, durante a administração do Prefeito Djalma Maranhão. Seu crime, o de ter trabalhado em uma administração perseguida por:

[…] alfabetizar vinte e cinco mil crianças, na primeira campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, reconhecido pela UNESCO como válida para as regiões subdesenvolvidas do mundo, num país de humilhante maioria de analfabetos, e lutar para dar ao povo acesso às fontes do saber, no plano de democratização da cultura.

[…] fazer feira de Livros, de construir uma galeria de arte e estimular o teatro do povo. De restaurar e promover a revalorização dos autos folclóricos. De abrir bibliotecas populares que estabeleceram recordes nacionais de empréstimos de livros, numa cidade que não tinha nenhuma biblioteca pública. (GÓES, Moacyr de (org.) Dois Livros de Djalma Maranhão no Exílio. Natal: Prefeitura Municipal do Natal, 1999, p. 262).

Aconteceu em 1964 uma ruptura da democracia, governos como o de Djalma Maranhão foram interrompidos e seus gestores presos ou exilados, seus programas interrompidos. Neste sentido, faço neste artigo ao trazer a memória de Mailde Pinto, um canto de lembranças destes tempos sombrios vividos pela sociedade brasileira.

Hoje vivemos uma tal onda de revisionismo histórico a fazer nos lembrar dos embates historiográficos na Alemanha dos anos 1980. Vozes como a do historiador Ernst Nolte com sua tese de justificativa do nazismo alemão. Conforme diz a historiadora Ana Lima Kallas, em seu artigo Usos públicos da história: origens do debate e desdobramentos no ensino de história. “Segundo Nolte, diante de tantos massacres em massa no século XX, tais como os realizados pelos Estados Unidos no Vietnã e o Gulag soviético, os alemães ocidentais deveriam ficar em ‘paz consigo mesmos’ e deixar ‘o passado em passar’”(Revista de História Hoje, vol. 6, nº 12, p.132, 2017).

Enfrentar o passado e não deixar passar os traumas vividos no pós 1964 pela sociedade brasileira é uma função urgente dos historiadores.

Ao abordar esse tema à luz de relatos como o de Mailde Pinto Galvão, faço um convite para embarcarmos na locomotiva do passado e, de forma clara, compreender os caminhos de nossa história recente. Pois:

De fato, o Golpe Militar de 1964 pode ser acusado de muitas coisas, menos de ter sido uma mera quartelada. Havia muito, tal intervenção era discutida em instituições, como a Escola Superior de Guerra (ESG), criada em 1948, ou o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), fundado em 1962 por lideranças empresariais. Outro indício de que o golpe vinha sendo tramado havia tempos ficou registrado nos documentos da operação ‘Brother Sam’, através da qual se prevê, caso houvesse resistência, que o governo norte-americano ‘doaria’ 110 toneladas de armas e munições ao Exército brasileiro. Por ser fruto desse planejamento, não é surpreendente que a instituição militar apresente um projeto próprio de desenvolvimento para o país – aliás, compartilhado pela maioria do empresariado nacional. Em larga medida, tal projeto consiste em retomar o modelo implantado em fins da década de 1950, aquele definido como tripé, baseado na associação entre empresas nacionais privadas, multinacionais e estatais. (DEL PRIORE, Mary; VENANCIO, Renato. Uma breve história do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010, p. 275 e 276)

Mailde Pinto, 1964 aconteceu antes de abril e ainda acontece, quando nos vemos diante de uma onda revisionista a dizer equivocadamente ter sido o golpe Militar/Civil-1964 um movimento ou uma “ditabranda”. Mailde Pinto Galvão, obrigado por ter deixado um relato sobre os tempos sombrios ocorridos na Natal da década de 1960.

Façamos de nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático.