POR LUCIANO CAPISTRANO // PROFESSOR E HISTORIADOR

 

Do Galeão
Voos
Gritos
Dores
Um algoz
Burnier
Estado cadafalso de legalidade
Angel
Vira
Desaparecido político
     (Do Galeão, Luciano Capistrano)

 

Zuleika Angel Jones, estilista, uma das personalidades mais importantes da história da moda brasileira. Zuzu Angel, simplesmente, como era conhecida. Mãe de Stuart Edgar Angel Jones, torturado e morto pelos órgãos de repressão. Uma mãe, como tantas outras que perderam seus filhos, Zuzu Angel passou sua vida, depois do triste outubro de 1971, denunciando os algozes do seu filho. Em 1976, em um suspeito acidente de carro, morreu sem poder enterrar o corpo do seu filho, até hoje inserido na lista dos desaparecidos.

As mães são seres iluminados, ao trazer as lembranças doloridas deste caso, neste mês de maio, mês das mães, faço para provocar uma reflexão sobre os desmandos dos governos autoritários.

Segundo o ex-preso político Alex Polari de Alvarenga, Stuart Angel foi torturado e morto na Base Aérea do Galão:

Em um momento retiraram o capuz e pude vê-lo sendo espancado depois de descido do pau-de-arara. Antes, à tarde, ouvi durante muito tempo um alvoroço no pátio do CISA (Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica). Havia barulho de carros sendo ligados, acelerações, gritos, e uma tosse constante de engasgo e que pude notar que se sucedia sempre ás acelerações. Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem número de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semi-esfolada, era arrastado de um lado para outro do pátio, amarrado a uma viatura e, de quando em quando, obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos. (Direito à Memória e à Verdade: Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Brasília: Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2007, p. 161)

Sobre o desaparecimento do corpo de Stuart Angel existem diversas versões, desde de ter sido enterrado em um cemitério do Rio de Janeiro, numa vala comum, como indigente sem identificação, até o de ter sido levado em um helicóptero e jogado seu corpo em alto mar.

“Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar.
Quem é essa mulher
Que canta esse lamento?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar.
   (Angélica – Chico Buarque)

Zuzu Angel, como diz a letra de Chico Buarque, não conseguiu “embalar seu filho” para deixar “seu corpo descansar”. Mãe, enquanto viveu fez do seu ofício de estilista uma barricada de resistência. Em 1971 promove um desfile no consulado brasileiro, em Nova York, com peças denunciando o desaparecimento do seu filho. Suas criações passaram a estampar canhões, pássaros engaiolados, meninos e anjos amordaçados.

O Brasil, tri-campeão do Mundo na Copa do México de 1970, era estampado nas passarelas do mundo como o país das torturas e violações dos direitos humanos. Essa realidade brasileira de prisões ilegais era uma prática crescente nos anos iniciais do governo do general presidente Emílio Garrastazu Médici. Conforme o Brasil Nunca Mais:

[… ] Médici dá início, em 30 de outubro de 1969, ao governo que representará o período mais absoluto de repressão, violência e supressão das liberdades civis de nossa história republicana. Desenvolveu-se um aparato de “órgãos de segurança”, com características de poder autônomo, que levará aos cárceres políticos milhares de cidadãos, transformando a tortura e o assassinato numa rotina. (BRASIL, Nunca Mais. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 63)

Ao encerrar este curto artigo lembro que no Brasil, mesmo no período do governos dos generais presidentes, a tortura não fazia parte da Constituição, a Lei de Segurança Nacional não tinha em seus artigos o Pau-de-arara ou o Choque elétrico como instrumentos legais de investigação; Então, esses crimes cometidos pelos agentes de segurança do Estado Brasileiro são atos cometidos pelo submundo da ditadura militar/civil contra o próprio Estado.

Façamos das nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático.