POR LUCIANO CAPISTRANO // PROFESSOR E HISTORIADOR

 

“Meu coração tá batendo
Como quem diz não tem jeito
Zabumba, bumba esquisito
Batendo dentro do peito…”
(Coração Bobo – Alceu Valença)

Na Noite do dia 30 de abril de 1981, no Riocentro, Rio de Janeiro, mais de 20 mil pessoas cantavam o “Coração Bobo”, música de Alceu Valença. O músico pernambucano e outros artistas participavam da celebração do dia 1º de maio, em homenagem ao dia do trabalhador.

Naquele 30 de abril, diversas pichações foram estampadas ao longo das vias de acesso ao Riocentro, eram referencias a grupos de esquerda. Enquanto Alceu cantava seu Coração Bobo, no palco, uma explosão acontecia no estacionamento.

A noite do 30 de abril de 1981 era marcada por uma ação terrorista organizada por grupos militares contrários ao processo de reabertura política iniciado no governo do presidente general Ernesto Geisel e continuado durante o mandato do seu sucessor general presidente João Figueiredo.

Escrevo sobre esse tema com a intenção de fazer o diálogo referente a um momento muito delicado de nossa história. Hoje alguns insistem em negar o caráter ditatorial do regime instalado no Brasil em 1964, através de um golpe militar/civil. O caso do Riocentro é bem simbólico, pois apresenta de forma clara o embate que existia dentro das próprias forças que fizeram 1964. Os golpistas não eram unânimes quanto a democratização em curso na sociedade brasileira.

O projeto de retomada da legalidade democrática era um terreno pantanoso. Os sucessivos governos dos generais presidentes, pós 1964, teceram uma rede paralela. Um Brasil paralelo com tentáculos bem articulados no Estado oficial, prendiam, torturavam e assassinavam às margens do aparato legal. Na verdade, uma rede obscura agia sob o manto dos órgãos de segurança. Era o aparelho repressivo montado na esteira da Lei de Segurança Nacional.

De nomes como o CENIMAR (Centro de Informações da Marinha), CIE (Centro de Informações do Exército), CISA (Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica), DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), DOI-CODI (Departamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna)…  Uma estrutura estatal criada para “manter a ordem”. Na prática, organismos de polícia política com atuação no submundo da ilegalidade. Deste aparato submergiu figuras do tipo Fleury Paranhos, Brilhante Ustra, Claudio Guerra e tantos outros membros dos órgãos de segurança e “militantes” da ultradireita empoderada nos corredores dos horrores das “delegacias e quartéis” transformados em “Casas de Torturas”.

O atentado do Riocentro foi resultado dessa máquina engendrada pelos fascistas contrários a abertura política em curso no governo do general presidente João Figueiredo.  Um dos casos mais graves ocorridos no período da ditadura militar/civil foi a ação fracassada daquele 30 de abril de 1981:

O atentado mais sério foi o do Riocentro, em 30 de abril de 1981. Mais de 20 mil pessoas assistiam a um show de música, como parte das comemorações do Dia do Trabalhador, quando uma bomba explodiu dentro de um carro no estacionamento. A explosão matou um sargento e feriu gravemente um capitão, os dois ocupantes do Puma, cuja placa era fria. Ligados ao DOI- CODI do Primeiro Exército do Rio, estavam à paisana. Alceu Valença cantava quando um percebeu que, de repente, a plateia olhou para trás, atraída pelo ruído da explosão. O show continuou. Mas tarde, outro artefato foi detonado na casa de força, mas a luz não chegou a ser cortada. Uma terceira bomba foi encontrada intacta. Não fosse o acidente no carro, o atentado poderia ter provocado uma tragédia de grandes proporções. ( PILAGALLO, Oscar. O Brasil em sobressalto. São Paulo: Publifolha, 2002, p. 150)

Neste momento de narrativas saudosistas dos militares e civis golpistas de 1964, faz-se necessário trazer para o diálogo estes fatos de nossa história. E me parece importante lembrar, como já me referi acima, do “clima” de disputa no âmbito dos setores militares. De um lado, uma ala defensora do lema: Abertura, “lenta, gradual e segura”, e, do outro lado a linha dura, responsável entre outras ações, pelo assassinato do jornalista Wladimir Herzog, torturado nas dependências do I Exército, em São Paulo, morto, os militares deram uma versão de “suicídio”, farsa desmascarada.

Riocentro: fez-se noite escura!
(Para não esquecer)

Um 30 de abril, em uma noite escura
Um puma, em uma noite escura
Um ato insano, em uma noite escura
Um explosivo, em uma noite escura.

O verde-oliva desbotou-se de cores: terroristas!

Um sargento, em uma noite escura
Um capitão, em uma noite escura
Um terrorista, em uma noite escura
Um dia do trabalhador, em uma noite escura.

Em 1981, uma explosão, um corpo dilacerado…
Sangra-se o país do Ame-o ou Deixe-o
Riocentro: fez-se noite escura!
(Luciano Capistrano)

O desmonte do aparato repressivo de manutenção do regime ditatorial tecido em 1964, não foi um processo fácil, o próprio ideólogo da abertura lenta, gradual e segura, o general Golbery, depois das investigações militares que inocentarem os membros do EXÉRCITO do atentado terrorista do Riocentro, pediu demissão do governo. Assim diz o historiador Carlos Fico:

O sargento Guilherme Pereira do Rosário morreu e o capitão Wilson Dias Machado, que estava ao seu lado, sobreviveu. Entretanto as investigações não os identificaram como autores, gerando grave crise no governo porque o general Golbery do Couto e Silva, chefe do Gabinete Civil da Presidência e ideólogo do regime e um dos mentores da abertura, demitiu-se frustrado com o resultado. Ainda assim, o atentado do Riocentro tornou-se um marco porque, desde então, cessaram as atividades terroristas da linha dura. (FICO, Carlos. História do Brasil Contemporâneo: da morte de Vargas aos dias atuais. São Paulo: Contexto, 2015, p. 100)

O caso Riocentro: Ultradireita uma nódoa verde oliva, deve ser um exemplo da importância de termos instâncias democráticas pautadas na legalidade constitucional para que os extremos não pratiquem ações terroristas como a daquela noite de 30 de abril de 1981. Façamos das nossas inquietações, sempre, um diálogo democrático.