A revisão do currículo técnico integrado ao ensino médio é um assunto que está mobilizando servidores e estudantes do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN).

O tema em questão remete à pregação ideológica que toma conta do atual governo federal e seus discípulos fantasiados de ministros. São estratégias que tem como pontos comuns a fragilização da classe trabalhadora pela engrenagem do Estado.

“A apropriação da linguagem pelo oprimido é um ato potencialmente revolucionário”. [Paulo Freire]

Quando se trata da produção do saber a ordem é catequizar. Essa tática não é nenhuma novidade. Assim como não é novidade a proposta de redução do Ensino Médio Integrado do IFRN. Esse é mais um sermão que fala a língua do Estado autoritário e toma partido por um projeto que promove injustiça e desigualdade.

Para o professor Dante Moura, “reduzir o Ensino Médio Integrado de quatro para três anos é atacar o direito social dos estudantes ao conhecimento e, portanto, precarizar a oferta educacional nos Institutos Federais”. Ele aponta que essa proposta de revisão está vinculada a reforma do ensino médio, apresentada pelo governo Temer via Medida Provisória e aprovada às pressas pelo Congresso Nacional em 2017.

Segundo Dante, na prática a revisão do Ensino Médio Integrado é uma adequação à lógica da reforma do Ensino Médio do país, que é a redução e a precarização.

O professor lembra que no ano de 1993 houve um grande debate no IFRN sobre o ensino integrado, que na época era chamado de segundo grau profissionalizante. “Era uma formação tecnicista que não dava conta de uma formação plena e integral. Após as discussões, chegou à conclusão de ampliar essa formação para garantir uma formação mais plena e integral dos estudantes”.

Entre os prejuízos da redução do Ensino Médio Integrado, Dante destaca a questão dos estudantes que trabalham em outro turno ou têm obrigações domésticas, como é o caso de grande dos alunos bolsistas. “Se o Instituto vai fazer o Ensino Médio Integrado em dois turnos, compreendo que é responsabilidade da instituição dá as condições para que os estudantes permaneçam nos dois turnos, garantindo a alimentação dos alunos”.

Além disso, existem as atividades extracurriculares que muitos alunos deixarão de participar por falta de tempo. “Temos muitas atividades que não fazem parte da matriz curricular, mas que são oportunidades de enriquecimento enorme para os estudantes, como a participação em grupos artísticos, em esportes, em atividades de extensão. Essas atividades são ofertadas em outros horários e os alunos nos dois turnos não teriam a oportunidade de participar dessas atividades devido as suas sobrecargas de aulas”.

“A instituição precisa ofertar uma formação ampla que permita os estudantes maturar mais sobre qual será sua trajetória e não acelerar os estudos para que os alunos se formem mais cedo e se tornem massa de manobra mais controlável pela lógica do mercado”.

Não vou me adaptar

Dante denuncia que a diminuição para três anos está ligada à redução orçamentária, uma consequência direta da regressão social do país. Daí, a necessidade de fortalecer o movimento de resistência e não se adaptar aos mecanismos impostos pela instituição.
Para isso é preciso ampliar esse debate com a comunidade escolar, pois está em jogo todo um projeto político pedagógico. “O quadro é difícil, mas vamos garantir o que é mais importante, que é a formação que a instituição proporciona a seus alunos em todos os níveis, em todas as modalidades”.

A professora Nadja Costa afirma que “os argumentos financeiros apresentados pela gestão do IFRN não se sustentam, pois representa muito pouco. Estamos construindo uma argumentação e reforçando o entendimento no sentido de se ter outra proposta que se contraponha à essa redução“.

O professor Hugo Manso reclama que a comunidade, interna e externa, não está participando dessa discussão. “Precisamos entender isso e como vai se processar, porque é uma mudança profunda. Comprimir quatro anos em três tem um conjunto de implicações e precisamos de mais tempo para discutir e entender tudo isso”.

A coordenadora do Sinasefe Natal, Aparecida Fernandes, também chama a atenção para a necessidade de ampliar esse debate. “Não é uma coisa simples. Não dá para falar sobre a redução sem discutir o que temos e o que queremos como política de ensino. Que possamos ter mais tempo de discussão, inclusive com dados mais objetivos em todos os cenários, não somente no cenário de redução da nossa oferta”.

Esse é um tema que precisa ser reforçado com muito debate envolvendo servidores, alunos e suas entidades representativas. Afinal, quem precisa de uma boa educação?

 

//com informações da assessoria de imprensa do Sinasefe Natal