“Com a vitória de Jair Bolsonaro, ganha estridência no Brasil uma fúria anticomunista de cunho patrioteiro, religioso, moralista – e anacrônico”, diz o jornalista Eugênio Bucci em artigo publicado na Folha nesta semana. Bucci relembra o macarthismo nos anos 1950 nos Estados Unidos e o “inimigo interno” do Brasil da ditadura militar para falar das atuais ameaças aos direitos e liberdades individuais, à liberdade de ensino e de imprensa.

 

“A prepotência já pôs duas de suas quatro patas na rampa do Palácio do Planalto. As outras duas logo virão: repressão aberta aos movimentos sociais, pregações contra a liberdade de cátedra nas universidades (e contra a gratuidade de ensino), ações deliberadas para ferir ou matar jornais independentes do governo”, escreve.

Entre a fumaça das fake news e declarações contraditórias, o governo Bolsonaro vai mostrando a sua cara. Seleciona órgãos de imprensa para coletivas, quando não os bloqueia – como fez recentemente no Congresso. Extingue o Ministério do Trabalho, busca aprovar o Escola sem Partido no Legislativo – apesar de projetos similares já terem sido rejeitados no STF – declara abertamente que não pretende demarcar terras indígenas e que vai flexibilizar – ou seja, enfraquecer – a legislação ambiental. Sua resposta para a segurança pública é a exclusão da ilicitude, liberando o homicídio pelas forças de segurança, e o aumento de armas em circulação.

Em meio a esse tiroteio a série “Efeito Colateral”, de Natalia Viana, que revela a letalidade das operações de Garantia de Lei e Ordem (GLO) do Exército no Rio de Janeiro desde 2011, aponta para o trágico equívoco dessa estratégia. E mostra que bom jornalismo é mais necessário do que nunca.

Nesse contexto, dois eventos programados para o fim de semana ganham significado especial. O Festival 3i em Recife, que reúne oito organizações de mídia digital, do qual a Pública participa, e a Conversa Pública “O Brasil no Divã”, com Maria Rita Kehl e Luiz Eduardo Soares, no Rio de Janeiro. Ou seja, muito papo e colo nesse momento “obscurantista”, como define Bucci. Acompanhem.

Marina Amaral, codiretora da Agência Pública