POR LUCIANO CAPISTRANO // PROFESSOR E HISTORIADOR

 

“Eis a real descrição
Da história da donzela
Dos sábios que ela venceu
E a aposta ganha por ela
Tirado tudo direito
Da história grande dela”

(História da donzela Teodora – Leandro Gomes de Barros)

No dia 13 de setembro de 2018 a Literatura de Cordel é reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil. Importante ato, pois o Cordel tem há muito tempo uma grande referência na cultura do brasileiro.

O dia 13 me fez lembrar de um velho amigo, o senhor Macilon, eu ainda jovem, ainda sem a calvície e os poucos cabelos brancos de hoje. O conheci quando morava no conjunto habitacional Santa Catarina e me fiz de comerciante, tempo em que me aventurei no mundo empresarial das livrarias e papelarias. Pois bem, seu Macilon todo final de tarde vinha me visitar na avenida Blumenau, onde localizava-se meu estabelecimento comercial, na verdade uma pequena loja.

O fato é que todo final de tarde, sentados no batente da porta da loja, eu e seu Macilon conversávamos sobre a vida e as memórias vividas por aquele senhor. Na época eu me achava tão jovem. Bem, o tempo passa. Em nossas conversas o cordel sempre esteve presente e, particularmente, a História da Donzela Teodora.

Quando vi a notícia do reconhecimento do Cordel como Patrimônio Cultural do Brasil, me lembrei logo de meu velho companheiro das tardes do Santa Catarina. Como era gratificante ir aos sábados na feira do conjunto Santa Catarina e procurar cordéis para alimentar minhas conversas com seu Macilon. Brincávamos com o fato dele ser o Macilon do bando de Lampião. Reminiscências de lado, vejamos o mote deste, curto, artigo:
A  Literatura de Cordel: Patrimônio Cultural do Brasil.

A Literatura de Cordel tem o reconhecimento merecido, por muito tempo já aclamado como Patrimônio do povo brasileiro, agora recebe o reconhecimento oficial.

Leandro Gomes de Barros, considerado o pai do cordel, deve está comandando lá no céu a celebração da poesia sertaneja. Uma literatura tão fundamental quanto a dita erudita. Neste quesito me filio ao campo dos estudiosos da cultura que não fazem distinção entre popular e erudito. Poesia é poesia e ponto. Como nos ensina o poeta e pesquisador Aderaldo Luciano:

Vamos abrir um parêntese para divertir que aqui não desejamos fazer distinção entre o que se denomina literatura popular e o que se determina literatura erudita. Para nós existirá Literatura. Não haverá, pois, para nós, poesia popular, a cuja abrangência reservou-se vincular o cordel. Essa distinção, segundo percebemos, reside na forma preconceituosa e excludente com que as elites intelectuais sempre trataram as produções que não saíssem de suas lides ou que não seguissem os seus ditames. Popular seria aquela poesia produzida pelo “povo”, os não letrados, os trabalhadores rurais, os habitantes dos guetos. Erudita seria aquela produzida pela elite intelectual, frequentadora da escola e detentora do poder econômico.(ADERALDO, Luciano. Apontamentos para uma História Crítica do Cordel Brasileiro. São Paulo: Editora Luzeiro, p. 17, 2012).

É neste sentido que penso a literatura de cordel, como uma forma de expressão nascida entre as camadas mais populares, agora sem o ranço, ainda presente entre alguns segmentos, de uma literatura “menor”. Não a distinção das formas de poesias, não se justifica a divisão: erudita e popular, principalmente quando acompanhado do viés preconceituoso.  A poética cordelista tem uma vastidão temática, como acentua o pesquisador Irani Medeiros:

O cordel usa tudo, ou quase tudo, como motivo para criação dos folhetos dos poetas populares. Desde os romances tradicionais – Carlos Magno e os Doze Pares de França, a Imperatriz Porcina, João de Calais, etc -, que nos chegaram da Idade Média, através do romanceiro ibérico, sendo aqui readaptado à ecologia e aos sentimentos nordestinos, até assuntos históricos brasileiros, fatos ligados à religiosidade, ao misticismo, à vida campestre, crimes, acontecimentos mais recentes da atualidade universal[…] (MEDEIROS, Irani. Leandro Gomes de Barros: no reino da poesia sertaneja. João Pessoa: Editora Idéia, 2002, p.13)

Nos tempos do “Cantinho do Poeta”, do saudoso cordelista Zé Saldanha, o dia 13 de setembro teria sido saudado com muita alegria. Ao lado de Bob Mota, Zé Saldanha deve ter feito, lá no céu, versos celebrando a Literatura de Cordel: Patrimônio Cultural do Brasil.

Enfim, finalizo, agradecendo aos resistentes cordelistas, em nossa cidade representados na Casa do Cordel e na Estação do Cordel, lugares vivos, localizados no bairro Cidade Alta.