NÃO HÁ PALAVRAS, NEM LAMENTO MAIS PROFUNDO QUE TRADUZA O PESAR DE NÃO
MAIS TERMOS NA QUINTA DA BOA VISTA, NO RIO DE JANEIRO, NOSSO ILUSTRE PATRIMÔNIO,
O BICENTENÁRIO MUSEU NACIONAL – UFRJ.


 POR JUSSARA GALHARDO // ANTROPÓLOGA E ESCRITORA

 

 

Consumido pelas chamas do descaso ardeu até perecer um significativo acervo que continha cerca de 20 milhões de itens, totalmente destruído. Fósseis, múmias, registros históricos, obras de arte, incontáveis pesquisas simplesmente viraram pó, cinzas. Pedaços de valiosos documentos queimados foram parar em vários bairros da cidade, esquartejados por uma politica soberba, que insulta e desdenha a cultura, a educação, a pesquisa e o patrimônio nacionais.

A morte do Museu Nacional torna-se um símbolo de um país que também se esvai nas chamas da desgovernabilidade, da corrupção, das injustiças sociais, que nos assola, que nos desnuda de direitos como cidadãos, direitos dos trabalhadores, assim como o fim de projetos de educação, de moradia e saúde, a destruição dos valores morais e éticos, o congelamento sobre os direitos sociais por vinte anos, a destruição do patrimônio nacional e crime de lesa-pátria contra a Eletrobrás, Petrobrás, Embratel, Embraer, etc.

Arde o país numa inquisição impiedosa, em que a dignidade e esperanças quase não mais há. Onde se deu lugar a apologias nazifascistas, à violência generalizada, ao machismo, ao classicismo, ao racismo.

Vale aqui evidenciar alguns aspectos voltados para questões de prioridades nesse país de faz-de-conta. Faz-de-conta que combate a corrupção e os seus atores. Um exemplo é a intervenção militar que desde seu início até junho deste ano já custou ao contribuinte cerca de R$ 46 milhões para nada resolver. Da mesma forma é importante saber que o orçamento por ano do Museu Nacional era equivalente ao salário anual recheado com benefícios de um juiz federal. Portanto, gastamos mais com Carmen Lucia, seus colegas e suas edificações suntuosas que com o Museu Nacional.

Como se não bastasse, vale lembrar dos R$ 385 milhões desviados nos esquemas do ex-governador fluminense Sérgio Cabral e por que não falar das joias, diamantes cravejados em colares, anéis, pulseiras e brincos de sua ex-primeira dama? Uma única joia – o par de brincos de turmalina, cravejado de diamantes, custou R$ 612 mil para os cofres públicos. Isso representa mais que o orçamento anual do MN em cada um dos últimos seis anos. Ao todo foram R$ 5,7 milhões gastos em joalherias luxuosas para seu próprio deleite.

Em maio de 2003, início do primeiro mandato do governo de Luiz Inácio Lula da Silva foi lançada a Política Nacional de Museus, documento que serviu de base para definir os rumos da preservação e do desenvolvimento do patrimônio museológico brasileiro. Já naquele ano, os investimentos no campo museal subiram de R$ 24 para R$ 44 milhões. Com a criação do IBRAM, instituído como uma autarquia vinculada ao MinC em 2009, o setor museológico passou a dispor de instrumento dotado de autonomia e maior orçamento para lidar com suas demandas. Os museus brasileiros também ganharam um canal direto e personalizado com o governo, o que tem contribuído de forma significativa para o desenvolvimento do campo.

No ano de 2006 estive com o Professor João Pacheco, antropólogo e curador da exposição “Índios: os primeiros brasileiros” do Museu Nacional/UFRJ, e naquela ocasião em que o trouxe para uma visita ao Museu Câmara Cascudo/UFRN ele me falou da possibilidade de apresentar sua exposição em Natal. Após oito anos – no ano de 2014 – finalmente recebemos esse célebre trabalho, que foi exposto ao público visitante em diversas salas e corredores da instituição. O conjunto da exposição mostra um verdadeiro passeio pela história do Brasil em que se apresenta o indígena no Nordeste em diferentes momentos de sua história: o primeiro encontro, o mundo colonial, o mundo indígena e os indígenas no Brasil contemporâneo. Dezenas de painéis, ricas ilustrações e fotografias, além de centenas de artefatos compõem esse importante trabalho de pesquisa.

Fotografia: Jussara Galhardo e Lenilton Lima

A exposição é fruto de anos de trabalho, articulando pesquisadores do Museu Nacional/UFRJ, representantes da APOINME e da Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), equipe da qual resulta pesquisa iconográfica sobre os modos como as populações indígenas vêm sendo representadas desde o século XVI. Por sorte esse valioso conjunto de informações acerca da etnologia e arqueologia indígenas, por ser itinerante, escapou das chamas, estando agora no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília-DF.

Por fim, vale lembrar que o Museu Nacional, o quinto maior acervo do mundo, continha uma coleção rara e valiosa como: o acervo de botânica de Bertha Luz; o maior dinossauro brasileiro já montado com peças originais; duas bibliotecas; o valioso arquivo de Kurt Nimuendajú; o primeiro jornal impresso no mundo, múmias, o crânio de Luzia de mais de 11 mil anos; acervo de linguística; referências etnológicas e arqueológicas das etnias do Brasil desde o século XVI, entre tantas outras perdas.

Infelizmente, no (des)governo atual que desmantela o país, vemos o tempo inteiro tragédias anunciadas. Outros patrimônios se perdem. O que será, por exemplo, da nossa Amazônia? Um dos maiores patrimônios do planeta. O que serão das reservas florestais, minerais, ambientais, das terras e dos povos indígenas e de sua diversidade etnocultural incomparável?

Está difícil viver nesse país de faz-de-conta. Luzia é (era) de inestimável valor científico por se tratar do mais antigo fóssil humano já encontrado no Brasil e nas Américas. Ela conseguiu atravessar mais de 11 mil anos de história, mas não resistiu ao fatídico Brasil de hoje, lamentavelmente.